Projeção audaciosa

Dirceu Brisola, do Bahia Asset, projeta corte de 1,5 ponto porcentual (pp) da Selic hoje e acha que BC tem razões e justificativa para isso (mas ele não descarta a aposta do mercado de recuo de 1 pp)

Fernando Dantas

12 de abril de 2017 | 00h13

O mercado ruma relativamente pacificado – em termos de projeção, mas não necessariamente de concordância – rumo a um aguardado corte de 1 ponto porcentual (pp) na Selic amanhã, para 11,25%, ao fim da reunião do Copom.

No Bahia Asset, entretanto, a audaciosa projeção oficial é de corte de 1,5 pp. Neste caso, como explica o economista-chefe, Tomás Brisola, há convicção tanto de que um corte maior da Selic é apropriado, quanto de que o Banco Central (BC), apesar da comunicação que sugeriu para a maior parte do mercado que a redução de 1 pp está praticamente assegurada, teria espaço para fazer mais.

Brisola faz duas ressalvas. A primeira é de que, apesar da projeção de 1,5 pp, ele naturalmente vê uma chance razoável de que a maioria do mercado esteja correta, e o Copom opte por 1 pp. A segunda é que, como ele diz, “a diferença não é tão enorme assim entre as duas alternativas”. Na verdade, como explica, o que parece em jogo é fazer três de 1 pp, e levar a Selic a 9,25% em 26 de julho, ou fazer duas de 1,5 pp, e derrubá-la ao mesmo nível em 31 de maio. Para o final do ano ele projeta Selic de 8%.

São 56 dias de diferença entre o resultado de duas de 1,5 pp e três de 1 pp. Brisola não acha de forma nenhuma que seja o fim do mundo se o BC optar pela caminhada menos rápida, mas considera que, dado o estado da economia, seria relevante e conveniente apressar o passo.

“Não há uma retomada contratada quando olhamos à frente”, diz o economista, notando que o Brasil hoje provavelmente tem a maior taxa de desemprego da história. Ele acrescenta que a ociosidade é muito grande, e nos últimos meses desvaneceu-se completamente a dúvida sobre o efeito desta ociosidade na inflação – ele veio, e veio forte, fazendo com que a inflação caísse com força, e levando núcleos e expectativas de mercado para diversos prazos a rodarem abaixo do centro da meta.

Diante desse quadro, é evidente para ele a necessidade de estimular a economia. Como, por causa do ajuste fiscal, o empurrão não tem como vir da política fiscal e parafiscal, a única arma à disposição do governo é a política monetária. Ela tem que ser usada com particular vigor porque o canal do crédito parece parcialmente obstruído pelo excesso de alavancagem de famílias e empresas.

Brisola considera que, levando em conta uma taxa real neutra que estima em 5%, o juro real deveria ir rapidamente para a faixa entre 3% a 4% para estimular a economia. Uma queda mais rápida da Selic poderia empurrar velozmente a taxa real do swap de 360 dias para essa região.

Em relação à comunicação, o economista faz duas observações principais. A primeira é de que, mesmo tendo falado em intensificação “moderada” do ritmo de cortes, o BC em princípio não deveria estar dando uma informação ao mercado que eliminasse totalmente o elemento de dúvida quanto à decisão de amanhã, e de certa forma tornasse até supérflua a atual reunião do Copom. Brisola entende que o colegiado sempre se reserva algum poder de discricionariedade ao se reunir durante dois dias para matutar sobre qual decisão tomará.

Em segundo lugar, depois do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), em que se repetiu a formulação da “intensificação moderada”, uma série de dados novos foram divulgados indicando que a retomada parece bem mais frágil do que se pensava.

Solange Srour, da ARX Investimentos, projeta corte de 1 pp da Selic, por causa da comunicação do BC, mas considera que seria mais apropriado cortar mais – e menciona 1,25 pp. Tanto ela quanto Brisola preocupam-se com novas quedas nas projeções do PIB no primeiro trimestre e do ano, que já não estão muito longe do zero. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/4/17, terça-feira.

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