PSDB deve entrar no governo Temer

Tucanos tiveram dúvidas sobre impeachment e é natural que tenham dúvidas sobre se vale a pena aderir plenamente ao governo Temer, caso o Senado receba o pedido de impeachment. A realidade da política, entretanto, indica que o PSDB deve entrar.

Fernando Dantas

26 de abril de 2016 | 10h31

O PSDB pode achar que o universo é injusto, mas, ainda assim, não há muita alternativa ao partido a não ser apoiar e participar sem ambiguidade do governo de Michel Temer, caso o Senado vote por receber o processo de impeachment. É verdade que, ao contrário da narrativa petista, o PSDB não liderou o impeachment, mas foi por ele arrastado. No início do processo, importantes lideranças tucanas titubearam e ficaram inclusive chamuscadas por causa disto junto ao antipetismo que cresceu e ganhou força nas ruas.

Do ponto de vista estritamente racional, se o PSDB teve dúvidas sobre o impeachment é mais do que natural que tenha dúvidas também sobre participar do governo que decorre do afastamento da presidente Dilma Rousseff. E razões para isso não faltam. Como apontado pelo cientista político Carlos Pereira recentemente neste espaço, se Temer der certo, o PSDB se arrisca a virar coadjuvante nas eleições de 2018; se der errado, se arrisca a afundar junto.

Tudo isso, porém, não anula o fato de que não apoiar Temer vai carimbar no PSDB pechas bastante desagradáveis. Por um lado, vai reforçar a visão mais pejorativa dos tucanos como um partido eternamente indeciso e medroso, com demasiada aversão ao risco. Por outro lado, um fracasso de Temer com o PSDB afastado erode mais ainda, assim como o voto pelo fim do fator previdenciário, um dos maiores ativos tucanos: a imagem de um partido responsável, comprometido com a estabilidade socioeconômica do País.

Octavio Amorim Neto, cientista político da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV), diz que “a situação é tão grave e a classe política está tão erodida que mais do que nunca é hora de o PSDB colocar o interesse do País acima dos interesses partidários”.

Amorim nota que há três formas pelas quais os tucanos podem dar suporte ao governo Temer. A primeira é um apoio exclusivamente parlamentar. A segunda é um apoio parlamentar com participação no ministério, mas em bases pessoais – isto é, filiados pode ser ministros, mas sem o endosso do partido. A terceira, finalmente, que ele apoia, reúne apoio parlamentar com participação no ministério sacramentada pelo partido.

O pesquisador da Ebape acha possível um acordo entre PSDB e PMDB em que Temer se comprometa a não concorrer nas eleições presidenciais de 2018, fazendo um governo de união nacional e transição. Isto, naturalmente, reforçaria a atratividade da participação por parte dos tucanos. Não há como obrigar Temer a cumprir o acordo (caso mais adiante queira mudar de ideia), reconhece Amorim, mas ele diz que o vice-presidente deve conhecer o alto custo político de quebrar compromissos públicos, como demonstrado, por exemplo, pelos efeitos do estelionato eleitoral de Dilma.

Jairo Nicolau, cientista político da UFRJ, diz ter a impressão de que o PSDB “está tentando ser muito estratégico, e agindo com excesso de racionalidade”. Assim, da mesma forma como em 2005 e 2006, durante o Mensalão, os tucanos decidiram que era melhor deixar “Lula sangrar”, agora tentam fazer cálculos sobre o que tornaria mais viável uma candidatura do PSDB à presidência em 2018. Para Nicolau, o partido deveria perder menos tempo em reflexões intermináveis e se render à realidade óbvia: o PSDB participou do processo do impeachment, votou em peso pelo sim, é o principal partido da bancada pró-afastamento – e, portanto, decisivo para o sucesso do governo Temer; desta forma, a não participação será lida por seus eleitores como hipocrisia e como uma aposta no insucesso de um governo que os tucanos ajudaram a chegar ao poder.

Ao contrário de Amorim, Nicolau não vê nem espaço para o PSDB negociar com Temer que o novo presidente (se o Senado receber o impeachment) não seja candidato em 2018. “O PSDB hoje não tem toda essa potência política”, diz o cientista político, acrescentando que uma negociação deste tipo faria sentido se a bancada tucana no Congresso fosse bem maior e se o partido tivesse um candidato que liderasse inequivocamente as pesquisas.

Dessa forma, para Nicolau, simplesmente surgiu à frente do PSDB o trilho do apoio e participação no governo Temer e o partido não tem alternativa boa a não ser seguir este caminho. Ele lembra que não é incomum que partidos participantes de coalizões de governo se afastem perto de uma eleição para lançar candidatos próprios, se for isto que o PSDB vai querer em 2018.

O momento é de o PSDB abandonar as hesitações e entrar de forma firme e inequívoca no novo governo, fazendo tudo para que dê certo e o Brasil supere uma das maiores crises políticas e socioeconômicas da sua história. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 25/4/16, segunda-feira.

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