PSDB na corda bamba

Tucanos se equilibram entre necessidade de lutar contra deterioração ainda maior da sua imagem ética e de preservar a imagem de partido responsável que zela pelo equilíbrio do País.

Fernando Dantas

04 Junho 2017 | 20h34

O PSDB está caminhando na corda bamba novamente, depois de afundar durante o auge do governo Lula e ver sua sorte melhorar nos anos recentes, com o naufrágio da era petista no Executivo federal.

Em 2014, Aécio Neves fez uma campanha mais assertiva em relação à ideologia socioliberal dos tucanos. Perdeu por pouco, mas levantou a moral do partido. Nas últimas eleições municipais, não só o PSDB cresceu, mas também o seu arquirrival, o PT, caiu feio. E finalmente houve a vitória de João Doria em São Paulo, sangue novo no elenco mal envelhecido dos principais políticos nacionais.

Toda essa recuperação, entretanto, entrou em xeque com os avanços da Lava-Jato, que em nada ajudaram a tese de FHC de que a corrupção petista é sistêmica e a tucana é ocasional. Estranha definição de ‘ocasional’ quando as denúncias atingiram todos os candidatos a presidente tucanos desde FHC: Serra, Alckmin e Aécio. Denúncia não significa comprovação, mas, ainda assim, não se pode dizer que o PSDB venha se destacando no quesito lisura.

De qualquer forma, os ventos continuavam relativamente favoráveis aos tucanos. O partido foi peça fundamental do impeachment, e mais ainda do governo Temer. Esta segunda parte se constituiu num risco bem maior: participar de uma gestão impopular com uma agenda reformista de cortes de gastos e restrições de direitos.

Maior risco, maior retorno em teoria. O discurso da tecnocracia tucana responsabilizando a nova matriz econômica pelo desastre econômico iniciado em 2014 e ainda não terminado “pegou”. Assim, mesmo que de forma sofrida e tortuosa, se Temer, amparado pelo PSDB, entregasse em 2018 uma economia reformada e em crescimento, o cacife tucano como partido responsável, não populista e eficiente na gestão seria reforçado, com reconhecimento por parcelas influentes da sociedade. Com um candidato com toques populistas e aparentemente imune à Lava-Jato como Doria, o PSDB poderia voltar a um protagonismo robusto no ano que vem.

E então veio a gravação de Temer. Subitamente, a associação com o atual presidente tornou-se lesiva nas duas frentes. Na questão da corrupção, embora o PSDB não seja nenhum santo – e o naufrágio ético de Aécio tenha explodido no colo do partido –, sempre se pode cair mais fundo. Agarrar as mãos de Temer até o provável fim inglório, portanto, não fará nada bem aos tucanos.

Na parte de gestão, parece que as chances de se realizar uma reforma da Previdência minimamente suficiente reduziram-se a quase nada. Sem reforma, e já com o casco da política econômica do “dream team” de Meirelles fazendo alguma água – o que será da política parafiscal com o ‘novo’ BNDES? –, é bem possível que o presidente “reformador por acaso” se torne o presidente “tocador com a barriga, como de hábito”, se sobreviver até 2018.

Diante desse quadro, o PSDB já deveria ter largado o governo, como parece ser a vontade da ala mais jovem e impetuosa do partido?

O cientista político Marcus Melo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), considera que a associação com Temer se tornou “tóxica” e dá razão à ala do partido que prefere sair do governo – mas pondera que há razões para não agir muito afoitamente, o que, de certa forma, dá suporte também à atitude de lideranças tucanas mais maduras.

Melo menciona estudos acadêmicos do cientista político Noam Lupu, da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, que comprovam que, no longo prazo, é fundamental para a sobrevivência dos partidos que eles cuidem bem da sua “marca” – isto é, a imagem que têm junto aos eleitores, e que é razão pela qual parte deles vota respectivamente nos partidos de suas preferências. Assim, estelionato eleitoral e alianças ideologicamente esdrúxulas, práticas comuns dos principais partidos brasileiros nas últimas décadas, são de fato extremamente danosas para as agremiações políticas.

Nessa ótica, o PSDB deveria zelar tanto pela sua imagem ética – ou melhor, lutar para que ela não piore ainda mais, como no caso de todos os partidos nacionais – quanto pela sua imagem de gestor eficiente e responsável da economia. Assim, abandonar açodadamente o governo Temer, criando um vácuo súbito e radical de governabilidade e balançando ainda mais o barco em águas já turbulentas, pode não ser a estratégia ideal.

Talvez faça mesmo mais sentido aguardar o julgamento do TSE, buscando uma transição mais suave politicamente para o pós-Temer, se o presidente afinal cair. No caso de o atual presidente partir para resistir até o último homem, reduzindo para perto de zero a chance de que seja aprovada antes de 2018 qualquer reforma mais significativa (com a possível exceção da trabalhista, cuja aprovação é facilitada pela forte representação empresarial no Congresso), o PSDB deveria desembarcar. No entanto, como nota Melo, o partido deveria deixar claro que, mesmo fora do governo, continuará apoiando de forma firme a reforma da Previdência e outras iniciativas para tirar a economia brasileira do buraco conjuntural e estrutural. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/6/17, sexta-feira.