PT e autocrítica: uma modesta sugestão

A entrevista do ex-ministro José Eduardo Cardozo à Míriam Leitão ilustra como é difícil para um partido político (no seu caso, o PT) fazer autocrítica. Então aqui vai a minha sugestão: por que não começar pelo apoio à Venezula de Chávez e Maduro?

Fernando Dantas

16 Fevereiro 2018 | 18h51

Em entrevista à jornalista Míriam Leitão, José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça e um dos melhores quadros do PT, disse que o seu partido deve fazer uma autocrítica, mas não agora, porque está sob ataque.

Ora, a vida partidária numa democracia é uma luta constante, em que as diversas agremiações se atacam mutuamente e tentam se defender das críticas e acusações dos adversários. Quase que por definição, todo partido político está permanentemente “sob ataque”.

Quando seria, portanto, o momento ideal para autocrítica, segundo Cardoso? Na entrevista, Cardozo exemplifica com o ano de 2006, quando Lula foi reeleito e “os tiros tinham parado”.

É uma resposta preocupante, em mais de um aspecto. Em primeiro lugar, ao contrário do que diz o ex-ministro, os tiros não tinham parado. Na verdade, a vitória foi tão triunfal que, de forma crescente a partir daquele momento, o PT, cada vez mais poderosamente encastelado na popularidade de Lula, pôde se dar ao luxo de ignorar o tiroteio democrático de críticas e denúncias que nunca parou.

Não é por acaso que autocrítica não foi feita em 2006. Na verdade, muito pelo contrário, foi ali que começou o processo de húbris petista (o inverso da autocrítica) que culminaria em megaescândalos e na nova matriz econômica, que se combinaram para provocar a hecatombe política, econômica e social de 2015 e 2016.

O tempo todo o que não faltou foram críticas éticas, políticas e econômicas aos rumos do governo petista – nos dois últimos casos, mirando a mudança de curso em relação aos primeiros anos centristas e liberais de Lula no poder.

O segundo aspecto preocupante da resposta de Cardozo é que fica claro que o PT só faria a tal autocrítica quando novamente solidamente instalado no poder federal. Em outras palavras, o partido pretende disputar o poder com um discurso pelo qual atribui à difamação dos seus adversários todas as críticas éticas e insiste em defender a política econômica que praticou de 2006 a 2014.

Nesse ponto, pelo menos, há o consolo de verificar que Cardozo está falando a verdade. É exatamente esse o discurso do Lula candidato e de tudo o que se ouve em termos de agendas e programas no campo petista. Em relação aos escândalos, foi tudo conspiração contra Lula ou coisas “que todo mundo faz”. Já na área econômica, a proposta é de retomar e reforçar a nova matriz econômica (mesmo que este nome não seja, obviamente, utilizado).

É profundamente desalentador que uma das agremiações protagonistas da vida partidária brasileira, aquela que mais tempo comandou o País desde a redemocratização, empunhe um discurso em que joga fora todo o processo de modernização e atualização do seu pensamento desde 1989, quando disputou pela primeira vez a presidência.

Por outro lado, é inegável dar razão a Cardozo em pelo menos um ponto. É de fato dificílimo para um partido político fazer autocrítica. Tome-se, por exemplo, o adversário histórico do PT, o PSDB. Tasso Jereissati provocou uma briga feia com meio mundo tucano por ousar patrocinar um programa partidário em que havia algum conteúdo de autocrítica, e nada de muito arrasador.

Ainda assim, autocriticar-se é preciso, e por isso fica aqui uma sugestão para Cardozo e o PT extremamente específica e recortada, e que não passa nem pelos escândalos nem pela nova matriz econômica.

A Venezuela está passando por um dos mais impressionantes colapsos socioeconômicos de um país no pós-guerra. Dezenas de milhares de venezuelanos vêm entrando desesperadamente no Brasil, em busca de comida, bens básicos e qualquer trabalho.

O PT sempre apoiou de forma firme e por vezes entusiástica o regime bolivariano de Chávez e Maduro. Quem não se lembra do “democracia até demais”, carinhosamente conferido por Lula à Venezuela de Chávez?

Criticar a Venezuela desde o início do desvario bolivariano, mesmo que de forma moderada e frisando o respeito à soberania nacional, teria sido uma ótima forma de o PT se diferenciar no contexto brasileiro e latino-americano como um partido de esquerda responsável a amadurecido. Mas a opção tomada foi a contrária: apoiar o bolivarianismo com mais força ainda, provavelmente com a justificativa à la Cardozo de que o regime estava “sob ataque” e recebendo “tiros”.

Agora, portanto, seria uma boa hora para o PT reconhecer que errou no seu apoio a Chávez e Maduro, já que a experiência bolivariana está terminando num indizível espetáculo de degradação econômico-social e sofrimento humano.

Seria apenas uma pequena fresta de autocrítica, ligada à política externa, algo que não está no dia a dia do eleitorado brasileiro. Dificilmente poria lenha na fogueira da “demonização do PT”, como coloca o ex-ministro, e mostraria um partido disposto a rever erros.

Vamos lá, Cardozo, coragem! Estamos esperando. (fernando.dantas@estadao.com)

 

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/2/18, sexta-feira.