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PT rumo ao passado

PT tenta fugir da crise com volta aos dogmas simplistas e errados do passado. Com isso, mina as chances - que a maioria dos analistas já considera pequenas - de que estratégia de Nelson Barbosa, ministro da Fazenda, funcione. É uma ilusão achar que um partido há 13 anos no poder pode se desvincular do governo e dos problemas econômicos e políticos que assolam o País.

Fernando Dantas

26 Fevereiro 2016 | 19h48

Diante da maior crise econômica e política durante os seus mais de 13 anos no poder, o Partido dos Trabalhadores (PT) aparentemente decidiu que a melhor saída é voltar ao passado. Esta postura fica clara na reação negativa ao fim da obrigatoriedade da Petrobrás de participação no pré-sal aprovada pelo Senado e na aprovação, prevista para hoje no diretório nacional, de um “programa nacional de emergência” cujo objetivo mirabolante é “relançar” por meio do gasto público uma economia que se aproxima perigosamente de uma crise de solvência.

Aturdidos pelo desastre econômico e pelos escândalos que engolfaram o partido, suas lideranças parecem buscar o conforto dos dogmas simplistas e errados de uma época romântica em que o PT, na oposição, encarnava o mito da força do bem que resolveria todos os problemas se apenas tivesse uma chance de chegar ao poder.

Com isso, o partido sabota as chances – que a maior parte dos analistas já considera bem reduzidas – de que dê certo a estratégia gradualista de ajuste que acabou prevalecendo neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, a partir do momento em que Nelson Barbosa substituiu Joaquim Levy no Ministério da Fazenda.

Barbosa está jogando todas as fichas no desenho e na implementação de um ajuste (que ele prefere chamar de “reforma) fiscal de médio e longo prazo, que ataque os gastos obrigatórios e os problemas estruturais da despesa pública. Em meio ao total ceticismo do mercado, ele parece apostar numa combinação de esgotamento cíclico da recessão, retomada de concessões e algumas vitórias na trilha da reforma fiscal – por exemplo, avanços no Congresso da reforma da Previdência e da CPMF – para em algum momento virar o jogo das expectativas.

Qualquer sinal de retomada – por mais tênue que ela venha a ser – poderia em tese ajudar a estancar o ciclo vicioso infernal que se apoderou da economia brasileira, no qual a urgência do ajuste fiscal aumenta no mesmo ritmo em que cai a arrecadação.

O governo tem a seu favor a indiscutível virada do setor externo, com o ajuste da conta corrente se processando numa velocidade bem maior do que previam os analistas. Ainda que grande parte dessa correção se deva à recessão, o fato é que a gravíssima crise fiscal pelo menos não vem combinada com uma crise gêmea no balanço de pagamentos – é bom não esquecer que esta última era uma grande preocupação de diversos analistas nos anos finais do primeiro mandato de Dilma.

Por outro lado, o superávit primário de R$ 14,845 bilhões do governo central em janeiro, e, especificamente, a redução dos gastos não combinam com a visão de alguns analistas de que, com Barbosa, Dilma retrocedeu à nova matriz econômica e à estratégia do “pau-na-máquina”. A contenção parece ter sido feita na forma atabalhoada do controle na boca do caixa e até do adiamento de despesas, mas, ainda assim, é um sinal positivo, se comparado com a visão fortemente negativa da política econômica que prevalece no mercado.

É, portanto, neste momento extremamente delicado, em que o governo se debate com uma nova vaga de escândalos e o pessimismo com a economia se aprofunda, que o PT namora a ideia de deixar Dilma órfã. É uma completa ilusão achar que o partido pode se descolar da conjuntura econômica e política após comandar o País por 13 anos, e enveredar por este caminho apenas vai piorar a crise que vai devorando o capital político petista. Não está claro que o projeto de Barbosa seja retornar à nova matriz, mas é certo que o PT vem se esforçando para empurrá-lo nesta direção. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News Broadcast em 26/2/16, sexta-feira.