Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

QE de emergente funcionou

Segundo o FMI, o saldo da experiência de quase 20 países emergentes (Brasil não está incluído), com o chamado "afrouxamento quantitativo" ("QE" na sigla em inglês), política monetária não convencional, durante a pandemia foi positivo.

Fernando Dantas

29 de outubro de 2020 | 21h59

Uma das novidades nas políticas de combate aos efeitos econômicos da pandemia foi o fato de que diversos países emergentes adotaram o “afrouxamento quantitativo”, ou programas de compra de ativos pelos bancos centrais, um tipo de ferramenta que até então era praticamente exclusivo das nações avançadas.

Foram pelo menos 18 nações emergentes, segundo o “Global Financial Stability Report : Bridge to Recovery” (Relatório Global de Estabilidade Financeira: Ponte para a Recuperação”), documento do FMI divulgado este mês.

O Brasil não está incluído nesse grupo. Entre as muitas medidas tomadas na área financeira em função do coronavírus, consta, na chamada PEC do “orçamento de guerra”, a permissão para o Banco Central fazer compras de títulos públicos e privados no mercado secundário – mas o expediente não foi usado.

Segundo artigo no Blog do FMI de economistas da instituição (Dimitris Drakopoulos, Rohit Goel, Fabio Natalucci e Evan Papageorgiou), após seis meses de experiências de afrouxamento quantitativo em países emergentes, o saldo é bom, com efeitos positivos no mercado financeiro dessas economias.

Esse efeito positivo, segundo os economistas, ocorreu mesmo quando se levam em conta outros fatores que ajudaram a estabilizar os mercados, como cortes de taxas básicas, as grandes compras de ativos pelo Federal Reserve, BC americano (que repercutem no mundo inteiro dada a centralidade da economia dos Estados Unidos), e a volta forte do apetite global por risco depois da fase mais crítica da pandemia.

Os autores notam que, em particular, as compras de ativos por BCs emergentes contribuíram para baixar a rentabilidade de títulos sem se fazer acompanhar por desvalorização das moedas locais (no Brasil houve forte desvalorização mesmo sem afrouxamento quantitativo, diga-se de passagem).

Essas mesmas políticas ajudaram a reduzir o estresse nos mercados dos países emergentes que as adotaram durante a pandemia, segundo os economistas do FMI.

O Global Financial Stability Report divide os emergentes que fizeram afrouxamento quantitativo durante a pandemia em três grupos. O primeiro, com países como Índia, Filipinas e África do Sul, tinha a taxa básica de juros bem acima de zero, e usou o afrouxamento quantitativo como ferramenta para melhorar o funcionamento do mercado de títulos e para prover liquidez para o setor financeiro.

A questão da taxa básica perto de zero é importante, porque é justamente quando ela chega próxima a esse limite que a possibilidade de fazer política monetária tradicional (via redução da taxa básica) vai se exaurindo.

Outro grupo de emergentes, como Chile, Hungria e Polônia, tinha a taxa básica mais próxima de zero. Em parte, fizeram o afrouxamento quantitativo por razões similares às dos países ricos, para afrouxar as condições financeiras, dar mais estímulo monetário e ter mais influência na rentabilidade dos títulos de prazos mais longos (para reduzir, no caso).

Finalmente, países como Gana, Guatemala, Indonésia e Filipinas deixaram explícito que o objetivo era reduzir a pressão no financiamento do governo causada pelos gastos excepcionais diante de um evento como a pandemia, que “acontece uma vez a cada geração”, como escreveram os economistas do FMI.

O economista Manoel Pires, do Ibre/FGV, nota que, no caso brasileiro, o eventual uso das compras de ativos pelo Banco Central tinha o problema de que seria uma espécie de subsídio para os fluxos de capitais que saíram do País durante a pandemia.

Em tese, a compra de títulos no mercado secundário pelo BC valoriza esses papéis, criando um efeito riqueza que pode se refletir positivamente no investimento e no consumo. Mas que também pode virar um estímulo a mais para quem quer tirar dinheiro do País, o que é indesejado num momento como atual, inclusive por pressionar o câmbio.

De qualquer forma, Pires nota que o momento dessa discussão passou, e hoje o que se debate – possivelmente também na reunião do Copom neste instante – é o caminho para uma eventual retirada de estímulos.

Ainda assim, ele acrescenta que os impactos econômicos difíceis de prever da pandemia formam um certo vaivém, em que momentos de necessidade de retirar ou de reforçar estímulos podem se suceder de forma surpreendente. Nesse sentido, ele considera positivo, e digno de atenção pelo Brasil, o fato de o FMI ter considerado que as recentes experiências de emergentes com afrouxamento quantitativo tiveram um saldo positivo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/10/2020, quinta-feira.

Tendências: