Quais os riscos econômicos com Marina presidente?

Riscos de uma eventual presidência de Marina são circunscritos: estão menos na macroeconomia e mais no agronegócio e no setor energético. Agricultura, porém, é forte e resiste a restrições. Já o panorama de energia é frágil, e dogmatismo militante pode ser grande empecilho ao crescimento.

Fernando Dantas

15 de agosto de 2014 | 12h08

Não há certeza ainda de que Marina Silva será candidata no lugar de Eduardo Campos, vítima do trágico acidente da quarta-feira (13/8/14), mas esta possibilidade está crescendo e é impossível deixar de pensar no cenário em que ela encabece a chapa do PSB. Afinal, Marina é uma das grandes lideranças políticas do Brasil, com uma história de vida emblemática no bom sentido, uma ambição ética acima do normal na política brasileira e um comprometimento forte com as questões ambientais, um dos temas definidores da nossa época. É difícil encontrar um perfil mais presidenciável e, diante da oportunidade histórica derivada de uma situação dramática, seria bastante frustrante para seus potenciais eleitores que ela não assumisse o projeto que vinha tecendo a dois com Campos.

Em termos econômicos, a candidatura de Marina pode implicar mudanças na chapa até quarta-feira (13/8) encabeçada por Campos. O ex-governador de Pernambuco desperta mais confiança no empresariado que a ex-petista. No momento em que a economia brasileira está quase parando por um fenômeno explicado em boa parte pela crise de confiança, a troca do candidato por Marina na chapa do PSB pode ter algum efeito negativo nas expectativas, caso ela desponte como uma contendora competitiva e com chances de ganhar.

Nesse sentido, é interessante rememorar o recente debate entre assessores econômicos na Globo News, mediado pela jornalista Monica Waldvogel, e que reuniu Marcio Holland, secretário de Política Econômica do governo Dilma; Mansueto Almeida, assessor de Aécio Neves; e Eduardo Gianetti da Fonseca, conselheiro da chapa Campos-Marina.

Apesar de todo o esforço de Campos de aparecer como uma terceira via entre petistas e tucanos, o que se viu na discussão dos assessores – e que é válido ao menos para o campo da política econômica – foi que a plataforma de Aécio e da candidatura socialista era praticamente idêntica.

Almeida e Gianetti uniram-se nas críticas a Holland, o que, em princípio, poderia ser um mero arranjo tático de conveniência – duas candidaturas postulantes abrem fogo conjunto contra os favoritos. O interessante, porém, é que o ponto de partida das fustigadas dos dois assessores da oposição era indistinguível. Ambos buscaram mostrar como a política heterodoxa do governo de Dilma Rousseff estava errada e causara os atuais problemas do País. Ambos defenderam um retorno a um arranjo mais ortodoxo, com resgate da austeridade fiscal, combate à inflação e fim do excesso de intervencionismo.

A grande questão é saber se Gianetti (e André Lara Resende, outro economista que pende para a ortodoxia nos temas macro) seria tão ouvido por Marina como aparentemente estava sendo por Campos. Alguns no mercado financeiro temem o alegado radicalismo de Marina, caso ela venha a se tornar uma candidata com chances, mas é bom lembrar que já na campanha de 2010 ela teve boa interlocução com economistas ortodoxos, e sinalizava que a política macroeconômica teria uma condução técnica, e mais centrista do que à esquerda.

Na verdade, o radicalismo de Marina, se de fato existe, é circunscrito a temas específicos ligados ao seu ativismo ambiental. No agronegócio, é certo que ela crie áreas de atritos caso chegue à presidência. Este é, contudo, o setor mais potente da economia brasileira, e é difícil imaginar que quaisquer ônus adicionais de caráter ambiental ou de respeito às populações indígenas que Marina impinja aos empresários do campo será capaz de descarrilar uma das agriculturas mais competitivas do mundo.

Uma questão particularmente delicada são os transgênicos. A biotecnologia é dos poucos setores em que o Brasil reúne condições para estar no estado da arte global, e isso já vem sendo retardado pelas atuais restrições legais à engenharia genética na alimentação. Evidentemente, esta é uma questão que depende da perspectiva de cada um – para muitos eleitores, é melhor viver num país com mínimos riscos à saúde pelo consumo de transgênicos do que promover um setor de ponta tecnológica no país. De qualquer forma, mais restrições nesta área deverão tornar ainda mais difícil para o Brasil transformar em realidade o seu protagonismo potencial neste segmento da economia do conhecimento.

Uma questão talvez mais séria em termos sistêmicos para a economia brasileira, numa eventual presidência de Marina, é a área energética. O País tem dificuldades de investir com seu setor público e em agilizar a parceria com a iniciativa privada em grandes projetos de infraestrutura, e já está bastante atrasado em termos de compatibilizar a capacidade energética instalada com a demanda, mesmo com uma economia que cresce pifiamente.

As iniciativas da presidente Dilma para baratear as tarifas, aliadas ao clima desfavorável, agravaram o desequilíbrio entre as trajetórias da oferta e da demanda em energia. Se o setor for agora alvejado por novas restrições ambientais, desenhadas mais pelo sectarismo militante do que pelo bom-senso técnico, este pode vir a ser um dos maiores gargalos a bloquear a retomada da economia brasileira.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/8/14, quinta-feira.

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