Qual a importância do “Lula-Alckmin”?

Cientista político Octavio Amorim Neto considera que chapa de petista e ex-tucano pode ser o início de uma “grande coalizão” para consertar a democracia brasileira pós-estragos bolsonarismo. A coluna levanta algum ceticismo sobre a tese (sem negar que a aliança seja positiva).

Fernando Dantas

22 de fevereiro de 2022 | 12h23

Em artigo recém-publicado no Boletim Macro Ibre de fevereiro, o cientista político Octavio Amorim Neto (Ebape-FGV) escreve que “a aliança Lula-Alckmin tem o potencial de ser a grande inovação política brasileira desde que o país entrou em modo de crise permanente com a eclosão das jornadas de junho de 2013”.

Para o pesquisador, a chapa Lula-Alckmin reúne líderes dos dois protagonistas de centro-esquerda (PT) e centro-direita (PSDB) de boa parte do período desde a redemocratização, em união contra a ameaça à democracia representada por Bolsonaro.

Na visão de Amorim Neto, apenas a aliança Lula-Alckmin reúne as condições de “dar a base política mais larga possível para um futuro presidente empenhado em revigorar a democracia, enfrentar uma dura crise econômica e social, e resgatar várias políticas públicas destruídas por Bolsonaro (meio ambiente, política externa, educação, cultura e ciência)”.

Mas ele frisa que, para funcionar, a aliança deve incluir PT, PSB, PSOL, PCdoB, PDT, Cidadania, MDB, PSDB e PSD, e, em sendo vitoriosa, negociar com os principais partidos do Centrão.

Segundo o cientista político, “Doria, Moro e Ciro são desagregadores contumazes e com poucas chances de vitória. Poderiam atrair os partidos clientelistas, mas dificilmente formariam uma grande coalizão democrática”.

Amorim Neto alerta que a “grande coalizão” não pode tentar governar apenas distribuindo cargos para os participantes dos diversos partidos, mas deve publicar um “contrato” sobre a orientação das principais políticas de governo.

Como escreve o pesquisador, “a definição de políticas deverá preceder a escolha de nomes para chefiar os ministérios”.

Evidentemente, a análise do professor da Ebape sobre a possível chapa Lula-Alckmin é polêmica. É certo que muitos discordarão de que a aliança represente um momento histórico tão importante como quer o cientista político, ou que tenha potencial para sanar a crise política interminável e reestabelecer no Brasil o bom funcionamento da democracia. Tampouco é consensual que Doria, Moro ou Ciro não conseguiriam formar uma base de apoio que lhes desse governabilidade.

Mas não é objetivo desta coluna levantar todas as objeções possíveis à análise de Amorim Neto, mas sim focar em dois pontos específicos.

O primeiro é o que representa a presença de Alckmin como vice-presidente na chapa de Lula. O problema aqui é considerar que o ex-governador de São Paulo, que obteve menos de 5% dos votos na última eleição presidencial, tenha o poder de puxar consigo parte expressiva da centro-direita para apoiar Lula candidato e, caso eleito, presidente.

Com o PSDB reduzido a uma ínfima parte da importância que já teve um dia no cenário político brasileiro, seria discutível se até uma aliança do PT com o partido tucano teria o condão de atrair o eleitorado e mesmo os políticos de centro-direita para um governo de Lula.

Porém, como o próprio Amorim Neto nota em seu artigo, nem mesmo a filiação de Alckmin (que saiu do PSDB) ao PSD de Gilberto Kassab, que tem pretensões de substituir os tucanos como principal partido de centro-direita do Brasil, deve acontecer. O mais provável é que Alckmin acabe no PSB, um partido à esquerda, o que torna o movimento do ex-governador paulista ainda mais esquisito para o eleitorado de centro-direita.

E, finalmente, há a questão programática, que o pesquisador da Ebape gostaria que fosse central na grande coalizão que enxerga como potencial desdobramento da chapa Lula-Alckmin.

Aqui o problema é que a dura e amarga disputa entre PSDB e PT durante boa parte do período pós-democratização tem efetivamente um forte componente ideológico e programático – o que torna a superação das divergências bem mais difícil.

O PSDB, desde que chegou ao Poder Executivo, defendeu políticas econômicas liberais e moderadamente ortodoxas, enquanto o PT – apesar do hiato do início do governo Lula – quase sempre, e ainda hoje, tem uma visão de intervencionismo e heterodoxia. Difícil considerar que, apenas porque Alckmin é vice de Lula, essa grande diferença de visões e propostas será superada.

No fundo, talvez uma abordagem menos ambiciosa da eventual chapa Lula-Alckmin faça mais jus ao benefício que ela concretamente pode trazer: o de que um possível novo governo petista evitará extremos em termos de orientação política e econômica, tornando-o mais palatável (mas não representativo) para parte de um eleitorado de centro-direita confrontado com a escolha entre Bolsonaro e Lula.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)    

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/2/2022, segunda-feira.