Qual a meta de inflação ideal?

No Brasil, que tem uma meta de inflação alta, a discussão é sobre quanto a reduzir (num horizonte de médio e longo prazo). No mundo rico, porém, há quem estude a possibilidade de elevar as metas em torno de 2%, como no caso de recente estudo de economistas do Bank of Canada (banco central).

Fernando Dantas

09 Maio 2018 | 19h14

No Brasil, a discussão atual é sobre baixar a elevada meta de inflação, que, do nível de 4% para 2020, poderia cair para 3,75% ou 3,5% para 2021, em decisão a ser tomada em junho pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

No mundo desenvolvido, entretanto, ressabiados pela Grande Recessão que se seguiu à crise financeira global e os níveis muitos baixos de inflação e juros (com taxas básicas em zero ou praticamente zero) que dificultaram a retomada, ainda se debate o problema oposto ao brasileiro: será que as metas de inflação típicas das economias desenvolvidas, em torno de 2%, são muito baixas?

Um recente estudo dos economistas José Dorich, Nicholas Labelle St-Pierre, Wadym Lepetyuk e Rhys Mendes abordou o tema com um propósito específico: o de investigar se um aumento da meta de inflação do Canadá de 2% para o intervalo entre 3% e 4% poderia melhorar a estabilidade macroeconômica do país. Os quatro economistas trabalham no Bank of Canada (banco central), e o trabalho foi publicado pelo BIS.

O estudo se baseia em simulações de diferentes níveis de taxas de juros reais neutros e na hipótese de que o banco central possa fazer uso sistemático dos dois tipos de ação “não convencional” mais prevalentes: o chamado afrouxamento quantitativo, isto é, a injeção de liquidez via compra de títulos de longo prazo do mercado; e a “forward guidance”, orientação prospectiva, pela qual o BC tenta influenciar as expectativas de mercado ao dar transparência às suas próprias expectativas e à sua estratégia e passos futuros de política monetária.

Com esse pano de fundo, a análise dos economistas foi feita com a utilização do próprio modelo econométrico principal do Bank of Canada, que, segundo eles, “fornece uma descrição quantitativamente realista da economia canadense”. Eles consideram que, apesar de ter sido feito especificamente para o Canadá, os achados e implicações do estudo são relevantes para outros países.

A conclusão é que, se a taxa de juro real neutra for positiva, os ganhos de se aumentar a meta de inflação para o intervalo entre 3% e 4% são modestos. Segundo os autores, “esse resultado diminui, mas não extingue, o caso em favor de uma meta de inflação mais alta”.

Na verdade, no caso da taxa neutra positiva, a investigação dos economistas do Bank of Canada indica que as ações não convencionais por parte da autoridade monetária dão conta do recado de reforçar a política monetária convencional (manipulação da taxa básica) em caso de necessidade.

A única ajuda de uma meta de inflação mais alta nesse caso seria a de fornecer ao banco central uma espécie de “seguro” em relação ao problema do desconhecimento que ainda permanece sobre os limites da eficácia das ações não convencionais (que não deve ser confundido com a questão da eficácia em si, que já parece ter comprovação mais sólida por meio de estudos empíricos).

No caso de a taxa de juros real neutra estar em terreno negativo, porém, o jogo muda. Como escrevem os autores, “em contraste, se a taxa de juro real for negativa, como sugerido por alguns defensores da hipótese da estagnação secular, nossa análise mostra que a disponibilidade (dos instrumentos) de política monetária não convencional torna-se irrelevante e uma meta de inflação mais alta melhora substancialmente o desempenho macroeconômico”.

Ao se referir à estagnação secular, os autores apontam que pelo menos uma estimativa recente (2017) da taxa de juro real neutra dos Estados Unidos a colocou em terreno negativo – o que, se for verdade, está influenciando (para baixo) a taxa neutra canadense, uma pequena economia aberta vizinha à americana.

O trabalho, portanto, indica que uma meta de inflação mais alta é uma boa escolha em caso de taxa real neutra negativa e diante das incertezas em relação à potência das políticas monetárias não convencionais. Os autores terminam enfatizando a necessidade de se estudar melhor a hipótese da estagnação secular (ou seja, de que as taxas de juros reais neutras nos países afetados por essa condição possam ser negativas) para se avaliar melhor se vale a pena ou não aumentar as metas de inflação. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/5/2018, segunda-feira.