Qual é o grau de vulnerabilidade do Brasil?

Fernando Dantas

14 de agosto de 2014 | 12h52

Duas importantes questões, de consequências encadeadas, estão no radar dos investidores e participantes do mercado financeiro envolvidos com o Brasil. A primeira é se e quando o cenário de altíssima liquidez internacional vai se reverter de maneira definitiva, com uma recuperação irreversível da economia norte-americana. A segunda é o grau de vulnerabilidade da economia brasileira a esse cenário de liquidez mais restrita, no qual os capitais tenderão a retornar ao centro, dificultando ou até talvez impossibilitando o financiamento de países deficitários. Um risco paralelo é uma desaceleração mais forte da China, que reduza a capacidade de produtores de commodities como o Brasil de acumular divisas exportando matérias-primas.

A segunda questão, sobre a fragilidade do Brasil, é objeto de forte debate entre o governo e seus críticos. Em fevereiro deste ano, o Federal Reserve (Fed, BC norte-americano) publicou um box, em seu Relatório de Política Monetária, sobre as vulnerabilidades das economias emergentes em cenário de estresse financeiro internacional. O Brasil figurava como o segundo mais frágil entre 15 países analisados.

Na época, o governo e a equipe econômica reagiram à análise do Fed, considerando-a inadequada. De lá para cá, outras visões semelhantes à do BC americano foram veiculadas, e a reação do governo foi parecida.

O economista Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, está entre os que considera o Brasil particularmente vulnerável a uma reviravolta da liquidez internacional. Ele vem se debruçando sobre o tema e revisitou o box do Fed de fevereiro.

Castelar fez um exercício de medição de vulnerabilidade a partir do que foi realizado pelo Fed, mas incluiu três outros países (Hungria, Peru e Polônia) e três outros indicadores (além dos utilizados pelo BC americano): o resultado nominal das contas do governo geral, a taxa média de crescimento do PIB nos últimos três anos (2011-13) e o investimento direto estrangeiro como proporção do PIB. Ele nota que o próprio ministro Mantega citou o crescimento como uma variável importante, ao criticar a classificação do Brasil no indicador do Fed, e o investimento estrangeiro direto para o País é recorrentemente citado pelos que discordam da tese da vulnerabilidade brasileira.

Os indicadores usados pelo Fed foram o saldo em conta corrente como proporção do PIB; a dívida bruta do setor público como proporção do PIB; a inflação anual média do último triênio; a variação no último quinquênio do crédito bancário ao setor privado como proporção do PIB; a relação entre a dívida externa total e as exportações; e a razão entre reservas internacionais e o PIB.

Os países incluídos pelo Fed foram África do Sul, Brasil, Chile, China, Colômbia, Coreia, Filipinas, Índia, Indonésia, Malásia, México, Rússia, Tailândia, Taiwan e Turquia.

O Fed não detalhou a metodologia do indicador de vulnerabilidade.

Castelar criou uma escala para os indicadores, e agregou-os em um único índice, em que zero é o melhor resultado teoricamente possível e 100 é o pior (também teoricamente, nenhum país ficou nos extremos no índice agregado). De qualquer forma, quanto maior o índice agregado, pior.

Depois disso, Castelar ranqueou cada país pelo grau de vulnerabilidade em duas versões: usando apenas os seis indicadores do Fed (mas para os 18 países, isto é, os selecionados pelo FMI mais os três acréscimos citados); e utilizando o conjunto de nove indicadores com o acréscimo mencionado de outros três.

No primeiro ranking, com 72,3, o Brasil é o segundo país mais vulnerável, perdendo apenas para a Turquia, com 77,4. Quando se agregam os nove indicadores, o Brasil fica com 62,9, mas, neste novo ranking, figura como o mais vulnerável entre os 18 países.

Para o pesquisador do Ibre, o governo deveria levar a questão da vulnerabilidade brasileira a sério, em vez de contestar as análises que a apontam: “Melhor do que brigar com os números seria fazer as reformas necessárias para corrigir esse quadro”.

A análise completa e mais detalhada de Castelar está neste link.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/8/14, segunda-feira.

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