Qual é o problema de não subir a Selic?

Manter a taxa básica onde está na reunião de janeiro é defendido até por alguns analistas ortodoxos. Mas dois fatores pesam contra essa visão.

Fernando Dantas

07 de janeiro de 2016 | 00h04

Se o Banco Central não aumentar a Selic na reunião dos dias 19 e 20 de janeiro, do ponto de vista estrito do exercício da política monetária, será uma decisão que em tese pode ser justificada. Afinal, analistas respeitados e que nada tem de heterodoxos ou “pombos”, como o ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore, defendem que não se deve mexer na taxa básica agora, dada a profundidade da recessão e os impactos fiscais nos juros da dívida bruta, que podem provocar o efeito contraproducente, do ponto de vista do controle inflacionário, de acirrar a depreciação do câmbio (o que não quer dizer que se trate de dominância fiscal).

Mas a decisão de janeiro não será um momento normal do exercício de política monetária e, portanto, uma eventual decisão de não subir a Selic tem contra si dois fatores extraordinários de grande peso.

O primeiro deles é a própria comunicação do BC, e sua relação com a formação de expectativas, no momento em que estas novamente se descolam, em diferentes prazos, da meta. É possível dizer que, desde outubro, o Banco Central trabalhou para criar “momento” para um moderado ciclo de alta neste início de ano.

A formulação pela qual a Selic seria mantida “por período prolongado” foi retirada da comunicação; houve os dois votos pelo aumento da Selic na reunião de dezembro; diante da virtual impossibilidade de se atingir o centro da meta de 4,5% em 2016, o BC sinalizou que iria tentar impedir que o IPCA varasse o teto de tolerância, de 6,5%; o BC negou categoricamente o risco de dominância fiscal e permitiu a leitura de que estava preocupado em pelo menos recuperar o juro real que foi erodido pela inflação mais alta que a esperada; e o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de dezembro indicou 40% de probabilidade de o IPCA romper o teto este ano e apontou 4,8% a 4,9% para o índice em 2017, acima do centro da meta, ao qual o BC indica que vai chegar no próximo ano.

“Toda a comunicação do BC foi linear e certinha nos últimos meses, indicando um ciclo de alta agora”, comenta um experimentado gestor. Desta forma, foi o próprio Copom que incutiu no mercado que, diante da nova rodada de piora dos condicionantes da inflação (como o câmbio) e de descolamento das expectativas, o ciclo moderado no início do ano era o remédio adequado. Se abandonar esse plano de voo, será muito difícil não provocar um novo estrago nas expectativas e nas perspectivas de inflação.

Isso, por sua vez, se combina com o segundo fator extraordinário que pesa contra a manutenção da Selic. Com a troca no ministério da Fazenda de Joaquim Levy por Nelson Barbosa, ganhou força – justa ou injustamente – a narrativa de que poderia haver uma volta aos tempos da política econômica da malfadada “nova matriz”. E um dos seus elementos foi justamente a sensação geral naquela época de que o BC perdeu autonomia e que a queda da Selic até seu mínimo histórico de 7,25% foi uma iniciativa guiada pelo Palácio do Planalto.

Assim, a decisão de não elevar a Selic em janeiro, a esta altura do campeonato, pode ter efeitos muito ruins sobre as expectativas não só por dissentir de um plano de voo que o próprio BC parecia querer vender aos agentes econômicos até bem recentemente, como também por alimentar a ideia de que há novamente perda de autonomia da autoridade monetária.

Com a divulgação do IPCA de dezembro na sexta-feira, cristalizando a inflação de dois dígitos em 2015, Alexandre Tombini, presidente do BC, terá de escrever uma carta pública ao Ministério da Fazenda, explicando as razões pelas quais o teto de tolerância foi rompido. Há bastante tempo para que a carta seja divulgada antes da reunião do Copom de janeiro, e é um bom momento para o BC de tentar desarmar essa nova armadilha de comunicação que parece estar sendo montada nos últimos dias: ou reafirmando o plano de voo do ciclo moderado de alta, ou, em caso contrário, tirando da cartola justificativas espetacularmente convincentes para manter a Selic onde está (o que, dada a deterioração das expectativas e a sua própria comunicação anterior, seria quase uma missão para semideuses). (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 6/1/16, quarta-feira.

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