Qual Lula?

No seu discurso de hoje, antes da entrevista coletiva, ex-presidente Lula deu primeiros sinais de qual figurino deve vestir para a competição presidencial do ano que vem. Mas ainda é muito cedo para ter certezas.

Fernando Dantas

10 de março de 2021 | 21h48

O pronunciamento de Luiz Inácio Lula da Silva antes de iniciar a entrevista coletiva hoje dá pistas sobre “qual Lula” será protagonista na campanha de 2022. Mas ainda é muito cedo para responder de forma segura a essa questão.

Na longa lista de agradecimentos, em que Lula fez acenos para um amplo grupo de personalidades de esquerda, da política às artes e às ciências sociais, chamou a atenção a não inclusão de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela. O ex-presidente, com essa omissão, mostrou-se bem mais sábio do que muitos personagens de menor envergadura no cenário político brasileiro atual.

Na entrevista que se seguiu ao discurso, entretanto, Lula elogiou Maduro.

Também chamou a atenção as referências mínimas à Dilma Rousseff, a sua sucessora, a não ser para atacar o impeachment. Nesse trecho do discurso, aliás, Lula teve um dos piores momentos do seu pronunciamento, ao dizer que a deposição de Dilma estava ligada ao desejo dos Estados Unidos de acumular estoques de petróleo.

É o tipo de maluquice sem nexo nem fundamento que frequentemente se ouve de Bolsonaro e seu gabinete do ódio, do mencionado Maduro ou de Olavo de Carvalho, o filósofo de araque que faz as vezes de ideólogo do bolsonarismo.

De qualquer forma, Lula deve estar atento ao fato de que, para um grupo de brasileiros que não é petista nem antipetista, e cuja conquista é fundamental para que o PT volte ao poder em 2022, uma narrativa que cola muito bem é de que Lula fez um ótimo governo e seu único erro foi ter escolhido a sucessora errada. Assim, discrição em relação à Dilma é bastante compreensível.

Lula gastou parte considerável do seu discurso na pele de vítima inocente crucificada por juízes militantes das forças que o combatiam na política. Os acontecimentos recentes dão bastante munição para o ex-presidente embasar esse discurso.

Afinal, suas condenações foram canceladas porque os processos foram julgados no foro errado, segundo Edson Facchin, e Gilmar Mendes ontem, ao votar favoravelmente ao pedido de suspeição de Sergio Moro no julgamento de Lula, discorreu eloquentemente sobre a má conduta e o espírito de perseguição a Lula por parte de Moro e seus colegas da Lava-Jato.

Mas não parece líquido e certo o ganho político de Lula ao insistir tão obsessivamente na sua total inocência e honestidade. O público lulista e petista já estava 100% convencido muito antes das decisões de Facchin e Mendes. Mas são eleitores já conquistados.

E ao restante do eleitorado, que acompanhou – ou ao menos tomou algum conhecimento – das histórias escabrosas de corrupção durante o período de governo do PT que foram relatadas em mínimos detalhes nas delações premiadas da Lava-Jato, a pretensão de Lula de ser considerado um anjo no covil da política brasileira pode soar pouco convincente, até falsa.

Porém, como se sabe, o que decide mesmo o voto do brasileiro costuma ser o bolso. E aqui Lula fez o que sabe fazer muito bem, que foi a crítica contundente da crise econômica atual tomando como parâmetro os anos de ouro do seu governo.

Talvez o melhor momento do discurso do ex-presidente foi sua crítica demolidora à atuação insana e provocadora de mortes evitáveis de Bolsonaro durante a pandemia.

Não que muitos políticos, como João Doria, já não tenham feito coisa parecida. Mas Lula é Lula, e ninguém domina como ele a arte de comunicar de forma contundente a sua mensagem ao brasileiro médio.

Para o mercado, o discurso de Lula deve ter soado amargo (embora o dia de hoje esteja até agora relativamente tranquilo). O presidente fez questão de sinalizar ideias antiliberais, criticando a privatização e elogiando o papel do Estado.

Este último ponto, aliás, é totalmente aceitável por qualquer corrente não extremista, se não fosse o fato de que o elogio do papel do Estado por Lula refere-se especificamente ao desastre criado por ele e sua sucessora com a nova matriz econômica.

Mas é muito cedo para pensar que um eventual novo governo petista reviveria a fase de política econômica mais insustentável, que vai do fim do mandato de Lula ao primeiro mandato de Dilma. A mais de um ano e meio da eleição, Lula e o PT têm muito tempo para ajustar o discurso. De forma bastante sutil, o ex-presidente também deu piscadelas para o centro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)