Qualificando a melhora externa

Superrecessão da Covid-19 e grande desvalorização do real contribuíram para reduzir rápida e intensamente o déficit externo brasileiro. Livio Ribeiro, do Ibre-FGV, explica por que esse alívio no front externo deve ser interpretado com parcimônia.

Fernando Dantas

29 de maio de 2020 | 11h24

Com o previsto mergulho da economia brasileira em 2020 e a forte depreciação do câmbio, as perspectivas para o cenário externo este ano mudaram em alta velocidade.

Segundo o Focus, o sistema do Banco Central de coleta de projeções de instituições financeiras e consultorias, a mediana das expectativas de déficit em conta corrente do Brasil em 2020 caiu pela metade, de US$ 60 bilhões em 12 de março para US$ 28,10 bilhões na última leitura, em 22 de maio. A projeção de saldo da balança comercial este ano subiu, no mesmo período, de US$ 35,8 bilhões para US$ 43,3 bilhões.

Mas já há instituições com projeções ainda mais agressivas, inclusive com o resultado da conta corrente entrando em terreno positivo.

O economista Livio Ribeiro, que acompanha – entre outros temas – as contas externas do Ibre/FGV, vê “um ajuste externo muito importante em curso”, mas faz algumas ressalvas e qualificações.

A sua projeção atual para a conta corrente em 2020 é de déficit de US$ 10,5 bilhões, ou 0,7% do PIB. Nesse caso, ele não vê uma diferença grande em relação aos que já projetam conta corrente positiva.

Ribeiro trabalha com a última projeção do Ibre para o PIB de 2020, de recuo de 5,4%. Ele nota que algumas projeções do mercado mais agressivas de virada na conta corrente pressupõem quedas maiores do PIB, que reduzem mais as importações. Assim, aqui a diferença está mais no dimensionamento da recessão do que em visões muito diferentes sobre o cenário externo.

O economista observa ainda que a atual projeção do Ibre para a conta corrente representa uma grande virada em relação a previsão de apenas três meses atrás, que era de déficit de US$ 57 bilhões, ou 3,2% do PIB.

Ele prevê um saldo na balança comercial de US$ 42 bilhões (há três meses era de US$ 22 bilhões). O aumento deriva de uma queda maior das importações entre as projeções de fevereiro e março, de US$ 51 bilhões (US$ 196 bilhões e US$ 145 bilhões, respectivamente); em comparação à queda, entre as duas datas, da projeção das exportações, de US$ 31 bilhões (US$ 218 bilhões em fevereiro, US$ 187 bilhões em março).

Na seara comercial, Ribeiro observa que o vetor é muito mais o ritmo da atividade do que o câmbio.

Nas exportações, o efeito do câmbio tem sido praticamente irrelevante, segundo o analista. A pauta brasileira está cada vez mais concentrada em venda para a China e outros países asiáticos de matérias-primas como minério de ferro, soja e petróleo, cuja demanda é muito pouco elástica em relação ao câmbio.

Já no caso dos bens industriais brasileiros, cuja exportação poderia se beneficiar do câmbio, a demanda caiu abruptamente por causa da paradeira global das economias em função do coronavírus.

“Já fomos deslocados pela China em nossos mercados externos para esses produtos, e não vai ser agora que teremos condições de retomá-los”, observa Ribeiro.

A substituição de importações é mais viável, mas mesmo esse canal não deve funcionar num momento turbulento como o atual.

O efeito mais significativo do câmbio acaba sendo, portanto, o de encarecer e reduzir as importações. Mas é aí justamente que o efeito da queda da atividade é mais forte e preponderante.

Outro fator para a redução do déficit em conta corrente, de acordo com o economista, é a grande redução de remessas de lucros e dividendos, gastos com viagens internacionais e serviços como aluguel de equipamentos.

Em todos esses casos, o mergulho da atividade pesa (nas viagens, há obviamente também as restrições de ordem sanitária).

Mas aqui o câmbio também entra. Ribeiro aponta que, quanto mais desvalorizado, mais reais são necessários para remeter uma mesma quantidade de dólares, o que é um fator de desestímulo a remessas de lucros e dividendos.

E é em função desses e de outros efeitos do câmbio que ele faz um alerta em relação a apostas muito agressivas de viradas na balança comercial e na conta corrente.

“Todo mundo fez essas projeções com um câmbio de quase R$ 6 e agora ele está mais próximo de R$ 5,3”, ele diz.

Na verdade, a intensa volatilidade do câmbio e a dificuldade de prever qual será o tamanho efetivo do tombo da economia brasileira este ano, e também da global, são fatores que deveriam levar todos os analistas a colocarem as barbas de molho em relação às suas própria projeções para o balanço de pagamentos em 2020, na visão de Ribeiro.

Ele nota ainda que, mesmo com a virada da conta corrente, as condições de financiamento externo da economia brasileira permanecem desafiadoras. A projeção atual do Ibre é de perda ativos de reservas em 2020 da ordem de US$ 43 bilhões. Em fevereiro, previa-se perda de apenas US$ 3,1 bilhões.

Finalmente, Ribeiro descarta a hipótese de que a recente recuperação parcial do real tenha a ver com a percepção da virada na conta corrente e no aumento da projeção da balança comercial.

“O câmbio não mexe por causa do resultado da balança comercial do mês”, diz o analista.

Para ele, a valorização do real nos últimos dia é fundamentalmente ligada a fatores externos como descompressão do risco global, alta em mercados acionários, enfraquecimento relativo do dólar e alguma recuperação de preço de commodities.

Ele observa que é possível que o fato de o vídeo da reunião ministerial não ter sido a “bala de prata” contra Bolsonaro possa ter tido algum efeito no câmbio, ao reduzir a hipótese de uma perda de governabilidade súbita. Mas Ribeiro não dá muito peso a esse fator, mesmo porque o governo Bolsonaro sempre dá um jeito de arrumar uma nova crise quando a anterior é superada.

“O câmbio tem sido sempre mais fatores externos”, conclui o economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/5/2020, quinta-feira.