Quando começa o “aperto quantitativo”?

A expressão significa não só o fim da estratégia do Fed, BC americano, de comprar título longo para aumentar liquidez, mas sim reversão, com venda de papéis longos. E pode acontecer ainda este ano. Emergentes que se cuidem.

Fernando Dantas

11 de janeiro de 2022 | 18h45

O cenário de aperto monetário global começa a se desenhar com mais nitidez neste início de 2022, e está dando a tônica negativa dos mercados. As principais bolsas caem e os juros sobem. O Brasil, como não poderia deixar de ser, vai na corrente, com riscos amplificados pela sua própria vulnerabilidade político-fiscal.

O Federal Reserve (Fed), BC norte-americano, também está realizando uma virada e tanto – para padrões de país desenvolvido – de sua atuação, como foi o caso do BC brasileiro no ano passado, de forma naturalmente muito mais drástica.

Como noticiado hoje por Letícia Simionato, do Broadcast, o Goldman Sachs elevou de três para quatro a previsão do número de altas de 0,25 ponto porcentual (pp) que o Fed realizará este ano nos Fed Funds, a taxa básica dos Estados Unidos. Isto faria com que os Fed Funds saíssem de praticamente zero, nível atual, para 1% até dezembro.

Essa expectativa de aperto monetário nos EUA vem nas asas de fatos da economia real, como a inflação elevada e o mercado de trabalho próximo ao pleno emprego, mas também deriva de sinalizações do próprio Fed, no discurso dos seus dirigentes e em documentos como a ata das reuniões do FOMC, o comitê de política monetária.

Em boa parte de 2021, enquanto mantinha os Fed Funds encostados em zero, o Fed prosseguia com a política de afrouxamento quantitativo, comprando mensalmente US$ 120 bilhões em títulos de longo prazo em poder do mercado.

Em termos de discurso, a visão de Jerome Powell, chairman do Fed, de que a subida forte da inflação norte-americana era um fenômeno “temporário” se manteve até o segundo semestre do ano passado.

Agora, não só as compras de títulos já foram reduzidas pela metade, devendo chegar a zero em março, como já se começou a especular sobre “aperto quantitativo” (“quantitative tightening”), a partir de sinais do próprio Fed, como recente declaração de Mary Daily, presidente do Fed de São Francisco.

O aperto quantitativo significaria que o Fed não só zeraria as compras de títulos de longo prazo em março, como passaria em algum momento, que agora se pensa possa ocorrer já em 2022, a vender títulos de longo prazo, reduzindo o seu balanço.

Assim como a compra de títulos pelo Fed injeta liquidez nos mercados e exerce pressão para baixo nos juros de longo prazo, a eventual venda teria efeitos opostos.

Todos esses sinais e expectativas já fazem efeito no mercado, como no título dez anos do Tesouro norte-americano, principal referência global no mercado de juros, que saiu de cerca de 1,5% para próximo de 1,8% apenas nestes dias iniciais de janeiro. No início de dezembro, caiu até 1,36%.

No Brasil, depois de caírem de forma relevante entre novembro e início de dezembro, os prazos mais longos e menos diretamente reativos à taxa básica (de curtíssimo prazo) da curva de juros voltaram a subir em janeiro, reagindo ao cenário externo. Na verdade, o movimento se iniciou no terço final de dezembro, e se acentuou em 2022.

O real, por sua vez, vem perdendo valor ante a moeda norte-americana desde junho, quando chegou a ser cotado abaixo de R$ 5 por dólar. Do início de novembro para cá, saiu das proximidade de R$ 5,5 para perto de R$ 5,7. Há elementos de insegurança doméstica nessa depreciação, mas também se trata de um movimento internacional do dólar, particularmente ante os emergentes.

Em perspectiva, na verdade, a reação até agora dos mercados de ativos brasileiros à mudança da política monetária norte-americana parece relativamente civilizada, comparada a episódios do passado.

Como já mencionado, o “cavalo de pau” da política monetária brasileira veio bem antes da virada no mesmo sentido da política monetária dos Estados Unidos, com o Copom iniciando o ciclo de elevação da Selic em março do ano passado.

De lá para cá, a taxa básica brasileira já se elevou de 2% para 9,25%, nível certamente mais compatível com um ambiente internacional de menor liquidez e maior aversão a risco.

Se a política monetária brasileira parece estar em sincronia com um cenário externo mais adverso, o mesmo não pode ser dito da política fiscal eleitoreira e irresponsável do governo. Para piorar, Lula, o candidato favorito no momento, dá rédeas soltas para que importantes vozes do PT ou próximas ao partido produzam uma cacofonia de visões de política econômica, a maioria das quais de teor populista e heterodoxo.

Com o previsto aperto de liquidez americano e global, o ano eleitoral no Brasil promete – infelizmente, não no bom sentido.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/1/2022, segunda-feira.