Quando desvalorizar não ajuda

Estudo de economistas do FMI mostra que, com grande parte das exportações com preços em dólares que não variam quando as moedas dos países exportadores se depreciam, impacto de desvalorização comercial nas exportações é neutralizado no curto prazo.

Fernando Dantas

17 de agosto de 2020 | 14h43

Em 2019, o déficit em conta corrente do Brasil atingiu US$ 50,8 bilhões, ou 2,76% do PIB. Mas, em 2020, o déficit externo está caindo, tendo alcançado US$ 9,7 bilhões no primeiro semestre, um recuo de 54% ante o déficit de US$ 21 bilhões no mesmo período do ano passado. A projeção mediana do Focus para o déficit em conta corrente em 2020, na verdade, é de apenas US$ 6,21 bilhões.

A pandemia, que levou a uma profunda recessão este ano, e a enorme desvalorização do câmbio são os fatores que explicam esse grande encolhimento projetado para o saldo negativo em conta corrente.

Desde o início do ano, o real se desvalorizou em 29%, saindo de R$ 3,819 por dólar no último dia de 2019 para R$ 5,364 quando esta coluna estava sendo redigida (13/8).

Uma questão relevante, entretanto, é a de saber quanto a desvalorização, que significa uma mudança de preços relativos favorável ao saldo comercial, está de fato contribuindo para melhorar a posição externa brasileira. O outro tipo de causa é a redução das importações causada pela recessão.

Recente artigo no Blog do FMI, dos economistas Gustavo Adler, Gita Gopinath e Carolina Osorio Burion, tenta trazer elementos para a discussão sobre se as fortíssimas desvalorizações de muitas moedas ante o dólar (principalmente), neste período de pandemia, vão ou não ajudar esses países na retomada econômica, via exportações.

Na verdade, o artigo se baseia em um “paper” dos três autores e outros economistas – “Dominant Currencies and External Adjustment” (“Moedas Dominantes e Ajuste Externo”) – que mostra que, no curto prazo, as desvalorizações cambiais na economia atual têm pouco efeito nas exportações dos países, especialmente emergentes.

A razão é que muitos produtos do comércio internacional têm seu preço de venda fixado em dólares, uma característica denominada de “Dominant Currency Pricing” (precificação na moeda dominante) ou “Dominant Currency Paradigm (paradigma da moeda dominante).

Esse fenômeno ocorre, segundo os autores, tanto no comércio internacional de bens como de serviços, embora menos neste último setor, e especialmente menos em alguns segmentos de serviços, como turismo.

O “Dominant Currency Pricing”, que tem a ver com decisões sobre preços das empresas, muda a forma como os fluxos cambiais reagem a mudanças nas taxas de câmbio. De forma simplificada, o exportador não baixa seu preço em dólar quando há uma desvalorização em relação à moeda do seu país, o que faz com que as quantidades exportadas não aumentem.

Usando uma nova base empírica de preços e quantidades do comércio bilateral de manufaturas, entre outras fontes de dados, os autores estimam que, no curto prazo (até um ano), países, tipicamente emergentes, que têm grande volume de exportações cotadas em dólares, experimentam até uma leve queda nas exportações em face de uma desvalorização de 10% das suas moedas.

Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, nota que o Brasil, cujo comércio exterior cada vez mais tende para a exportações de commodities ou produtos industriais pouco elaborados (um exemplo é suco de laranja), deve ser particularmente afetado pelo fenômeno do “Dominant Current Pricing”.

Isso significa, por sua vez, que a grande depreciação recente do real pode ter bases mais fundamentais do que aparenta, porque o efeito da mudança cambial sobre as contas externas acaba sendo menor do que o que se costumava pensar. É preciso desvalorizar mais para ter o mesmo impacto que se imaginava obter com depreciações menores.

Por outro lado, o mesmo estudo dos economistas do FMI mostra que o efeito do “Dominant Current Pricing” só ocorre no curto prazo, e em cerca de três anos se torna muito menor. O que quer dizer que o nível atual do câmbio, embora tenha menos efeito nas exportações a curto prazo, pode impulsioná-las bem mais em dois ou três anos. Isso, por sua vez, sugere que, supondo alguma estabilidade nos outros fatores que condicionam a taxa de câmbio, haveria espaço para o real se revalorizar no médio prazo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada em 13/8/2020, quinta-feira.