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Quando e como sair da quarentena

Já há estudos e sugestões sobre o assunto, como os mencionados na coluna, na Alemanha e no Reino Unido. Mas não se trata do desejo suicida de sabotar o isolamento social quando este é mais necessário, e sim criar as condições para que, mais adiante, ele possa ser relaxado de forma gradual e segura.

Fernando Dantas

13 de abril de 2020 | 21h31

Enquanto no Brasil o presidente Jair Bolsonaro e asseclas, dentro e fora do governo, lutam para acabar com o isolamento social de forma repentina e desordenada, em outros países defensores da quarentena já estudam a melhor forma de, gradativamente e com muito cuidado, flexibilizá-la quando o pico da epidemia passar.

Um estudo de um grupo multidisciplinar de acadêmicos na Alemanha (ver link no fim do artigo), por exemplo, publicou recentemente um documento com o título de “Tornando sustentável a luta contra a pandemia do coronavírus”. O trabalho foi coordenado por Clemens Fuest, presidente do Instituto para a Pesquisa Econômica (Ifo), com sede em Munique, e Martin Lohse, renomado médico e farmacologista alemão.

No trabalho, desenham-se vários princípios e diretrizes para um gradual relaxamento do isolamento social, mas apenas quando as condições forem propícias. Também se preveem uma série de providências que permitam lidar com uma massa de casos de síndrome respiratória grave no futuro, mas sem se descartar a volta à quarentena, se for necessário.

Os autores chamam essa estratégia de saída gradual de “adaptada ao risco”.

Eles estipulam condições para que ela aconteça, deixando claro que a ideia nada tem a ver com as proposições absurdas e anticientíficas de simplesmente deixar a doença tomar seu curso.

Para que a estratégia adaptada ao risco possa ser iniciada, é necessário que “todas as medidas levem em consideração a expectativa da população de que todas as pessoas gravemente doentes receberão tratamento médico adequado, que o sistema de saúde não está sendo demandado acima da sua capacidade e que os grupos particularmente vulneráveis estão sendo protegidos”.

Segundo os autores, “idealmente, o número de novas infecções e o número de pessoas curadas estarão equilibrados”.

O estudo analisa os benefícios e os custos da política de isolamento social na Alemanha. Os benefícios, obviamente, são o de poupar milhares de vidas. Os custos são médicos (inclusive o pior atendimento para pacientes de outras moléstias que não a Covid-19), perda de atividade econômica, e danos sociais e psicológicos.

Assim, os objetivos da “estratégia adaptada ao risco” são o de evitar novos surtos, reforçar o sistema de saúde, proteger grupos de risco, mitigar danos sociais e psicológicos, tornar possível atividades econômicas sem riscos à saúde e limitar as restrições aos direitos individuais ao mínimo possível.

Dessa forma, antes de entrar no mérito de quem, e de que jeito, pode sair gradativamente da quarentena, o trabalho mostra tudo que tem que ser feito para dar bases seguras a este passo.

A população tem que ser educada e treinada para tomar as medidas de higiene protetivas. Tem que haver um maciço e coordenado esforço de testagem. Os serviços médicos para os pacientes não Covid-19 têm que voltar ao nível pré-crise. Tem que se garantir uma produção maciça na Alemanha de vestimentas médicas de proteção, máscaras, respiradores, testes e remédios ligados à doença. E há uma série de outras medidas ligadas à coordenação entre o governo federal e os provinciais, aspectos tecnológicos (como, por exemplo, acompanhamento de pessoas pelo celular, inclusive quando infectados tiverem que fazer quarentena), etc.

A proposta é mais baseada no compartilhamento de informações e sistemas e na coordenação do que em decisões centralizadas de cima para baixo. Seriam criadas uma força-tarefa nacional e forças-tarefas regionais para coordenar a estratégia, mas com o papel mais de estabelecer diretrizes, fazer recomendações e preparar o processo político de tomada de decisão, além de monitorar e avaliar as decisões.

Asseguradas essas pré-condições, os critérios para uma abertura adaptada ao risco são: risco de infecção pela Covid-19, risco de ser um caso grave, relevância para a respectiva área da vida social e econômica, e se é factível impor (para a pessoa ou grupo em questão) as medidas preventivas.

Essas condições devem ser aplicadas transversalmente a regiões, grupos de pessoas, setores da vida social e setores econômicos.

Assim, setores com baixo risco de infecção, com fábricas altamente automatizadas, creches e escolas deveriam reabrir primeiro. Complementaridades devem ser levadas em conta, como o fato de que, com creches fechadas, muitas pessoas não podem trabalhar.

Setores em que trabalhar com home office seja mais fácil vão para o fim da lista de prioridades. Setores de alto valor agregado terão prioridade. Restrições a grupos ou setores que criem elevado grau de estresse social e psicológico também devem ser abrandadas primeiro, assim como no caso de regiões com taxa de infecção mais baixa e com menos potencial de disseminação do coronavírus.

Regiões que já passaram por uma epidemia severa e desenvolveram altas taxas de imunização também poderiam aderir à estratégia adaptada ao risco mais cedo, assim como áreas onde haja capacidade ociosa no sistema médico-hospitalar.

Um outro estudo (ver link no fim do artigo), por dois acadêmicos da Universidade de Warwick, no Reino Unido (Andrew J. Oswald e Nattavudh Powdthavee), faz uma proposição específica de liberação ao trabalho no país de jovens empregados de 20 a 30 anos que não morem com os pais.

Como no caso do trabalho alemão, os autores apoiam o isolamento social como forma de combate à Covid-19 e a sua proposição é apenas para quando chegar o momento de iniciar o relaxamento gradual.

Muito diferente da ideia insana de ignorar os riscos e tentar fazer a população voltar a circular quando os casos ainda se multiplicam, como Bolsonaro e sua trupe insensata querem.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/4/2020, segunda-feira

Links dos estudos mencionados na coluna:

file:///C:/Users/Fernando%20Dantas/Downloads/Coronavirus-Pandemic-Strategy.pdf.pdf.pdf

file:///C:/Users/Fernando%20Dantas/Downloads/policy-briefing-oswald–powdthavee.pdf.pdf.pdf