Quando o PIB vai sair do 1%?

Os economistas Carlos Kawall e José Márcio Camargo concordam no diagnóstico e receituário para a economia brasileira, mas tem visões bem diferentes sobre o crescimento em 2020. Conversei também com Silvio Campos Neto, da Tendências.

Fernando Dantas

14 de fevereiro de 2020 | 19h51

Os resultados do IBC-Br de dezembro, quarto trimestre e ano fechado de 2019, divulgados hoje (14/2, sexta-feira), coroaram uma temporada de desapontamentos com os indicadores econômicos do final do ano passado.

Agora, as projeções de crescimento do PIB em 2020 encolhem na direção de 2%, e já começam a surgir prognósticos de que possa até ficar abaixo disso.

Silvio Campos Neto, economista da consultoria Tendências, ressalta as decepções na indústria e no varejo (neste caso, sinalizando enfraquecimento no consumo) no final de 2019.

Como a projeção de PIB da Tendências para 2020 já estava no nível, até pouco tempo conservador, de 2,1%, a previsão por ora está mantida, mas Campos Neto nota que o risco é mais para baixo do que para cima no momento.

Ele ressalva que o repique da inflação no final do ano passado pode ter contribuído, como deflator, para deprimir os índices de atividade (o que seria um efeito episódico). Por outro lado, o impacto desapontador da liberação do FGTS preocupa.

De qualquer forma, o economista considera que um ritmo de 2% “é o que ainda está colocado” para a economia brasileira no momento, e a aceleração a médio e longo prazo depende da agenda de reformas e de aumento da produtividade.

É interessante contrastar a visão de Campos Neto, próxima à corrente principal do mercado, com dois analistas que têm leituras da atual conjuntura um pouco deslocadas, para direções opostas.

O economista José Márcio Camargo, da Genial Investimentos (grupo Plural) no Rio, ainda crê num crescimento de 2,5% em 2020, mas condicional a encrenca do coronavírus não se estender por mais de um trimestre.

Já Carlos Kawall, diretor do ASA Bank, ainda mantém 2% para 2020, mas diz que o risco é para baixo, e que pode acabar sendo algo entre 1,5% e 2%.

Mas o mais interessante é contrastar as narrativas dos dois economistas, que, aliás, convergem em termos de médio e longo prazo e no receituário para acelerar a economia.

Conjunto de reformas

Começando por Camargo, ele considera que o mercado, de forma geral, está muito sensível a indicadores de curto prazo, perdendo a perspectiva de um movimento mais estrutural que está em curso.

“O Brasil veio montando um conjunto de reformas que cria condições para que cresçamos 2,5% este ano, com aceleração para algo entre 3% e 3,5% em 2021 e 2022”, diz o economista.

Na área fiscal, Camargo dá grande importância à aprovação do teto de gastos no final de 2016. O passo seguinte foi a aprovação da reforma da Previdência, e agora foram enviadas diversas PECs ao Congresso.

Na visão do economista, é bem possível que, dessas PECs, passe o suficiente para que o teto seja cumprido até 2026, quando ele pode ser modificado. E isso resolve por alguns anos o problema fiscal (ele não disse que é uma solução definitiva).

A crença de Camargo num nível razoável de aprovação das PECs se dá por uma questão de incentivos. Com o Orçamento impositivo, quanto mais sobrar dinheiro para os gastos não obrigatórios, mais os parlamentares poderão gastar com suas emendas. Assim, eles se alinham com o objetivo da equipe econômica (e que é parte do conteúdo das PECs) de restringir o gasto obrigatório.

O analista também julga muito importante a reforma tributária, e acha que os líderes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, têm incentivos para apadrinhá-la.

Camargo, um especialista em mercado de trabalho, tem um particular entusiasmo pela reforma trabalhista que, para ele, já está tendo efeitos relevantes.

Ele vê potencial de ganho de produtividade no aumento dos trabalhadores por conta própria (especialmente com CNPJ), já que quem é patrão de si mesmo tem mais incentivos a produzir mais (já que isto se reverte imediatamente em mais ganhos) do que empregados.

O economista também cita efeitos sobre a produtividade a reforma do ensino médio, à medida que for sendo implementada. Os principais ganhos, para ele, são a redução do número de matérias ensinadas, o que facilita o aprendizado dos mais pobres, e a introdução de cadeiras profissionalizantes.

Fora isso, ele vê “algum grau de abertura econômica que já começa a acontecer, e observa que há  toda a agenda microeconômica que vem se materializando, como a TLP e o cadastro positivo.

“O crescimento é um problema microeconômico e toda reforma que faz os mercados funcionarem melhor facilita a otimização da alocação de recursos, que conduz ao aumente da produtividade e à aceleração do crescimento”, sintetiza Camargo.

Na visão do economista, todos as diversas mudanças mencionadas acima vêm ganhando uma força cumulativa e devem garantir um melhor desempenho da economia brasileira nos próximos anos.

Ritmo “basal”

Kawall, por sua vez, começa dizendo estar muito alinhado com a visão de Camargo sobre os caminhos para o Brasil acelerar ao crescimento. Tanto que, pensando em 2021 e 2022, ele acha possível um ritmo de crescimento entre 2,5% e 3%, se de fato a agenda de reformas for implementada a contento.

O problema é que, por enquanto, ele vê um de crescimento de 1%, ou pouco mais do que isto, como um “ritmo basal” da economia brasileira.

O economista nota que o PIB cresceu em torno de 1%, ou ligeiramente mais, de 2017 a 2019. Ele estima que o crescimento (ante o tri anterior, dessazonalizado) do quarto trimestre de 2019, descontado o efeito do FGTS, deve ter sido de 0,2%. Já o crescimento que projeta para o primeiro trimestre de 2020 é 0,3%. Tomando os dois números, está se falando de uma economia que teria voltado a crescer a um ritmo anualizado em torno de 1%, na margem.

O ponto de Kawall, entretanto, é de que os analistas deveriam inverter o foco: em vez de sair em busca de choques que expliquem por que a economia mais uma vez não cresceu no ritmo esperado, agora de 2%, deveriam assumir que o “ritmo basal” é mesmo de 1% – e que, portanto, não deveria ser uma surpresa que o PIB reverta ao seu padrão médio recente.

O analista nota que, no movimentado período dos últimos anos, de fato a economia brasileira sofreu muitos choques, mas estes não foram apenas negativos: em 2017, por exemplo, a supersafra fez o PIB crescer a um ritmo bem mais forte no primeiro trimestre,  mas ainda assim o ano não fugiu ao padrão em torno de 1%.

Um total de R$ 88 bilhões foi injetado na economia de 2017 a 2019, somando liberações de FGTS e PIS/PASEP. Ele acrescenta que se fala no choque da crise argentina agora, mas tomando como base as exportações brasileiras para o país vizinho em 2017, que tiveram o melhor resultado em nove anos. A média de crescimento argentino de 2011 a 2019 está em torno de 0,7%, o que mostra que o impulso das exportações para o parceiro não pode ser grandes coisas.

“O ‘outlier’ na verdade foi 2017”, diz Kawall.

Assim, o ritmo “normal” da economia brasileira nos últimos anos, e ainda agora, é mesmo em torno de 1% anual, com momentos em que os resultados trimestrais vão para cima deste nível, e outros em que vão para baixo.

Kawall concorda com Camargo que toda a agenda já em andamento de reformas macro e microeconômicas melhoraram a economia brasileira pelo lado da oferta, e aumentaram o crescimento potencial.

A curto prazo, porém, há o problema da demanda, e o ajuste fiscal pelo lado da receita e o ajuste parafiscal (Kawall apoia ambos) tornaram esse problema ainda mais complicado. A economia global também não está contribuindo.

Para o economista, o “driver” para a aceleração deve ser a agenda de privatizações e concessões em infraestrutura, e a retomada de grandes obras paralisadas pela Lava-Jato.

Mas a dificuldade é que, pelas questões envolvidas no trâmite desses projetos, a tração econômica dessa agenda deve ficar para 2021 e 2022, na sua visão. A recuperação da construção civil habitacional também pode ajudar, mas por enquanto ela ainda está muito localizada (o epicentro parece ser o município de São Paulo).

Dessa forma, Camargo e Kawall comungam da visão de um PIB que pode crescer até 3% ainda neste mandato presidencial, nas asas do atual momento reformista da economia brasileira (e supondo que ele continue). Mas há uma diferença de timing. Camargo pensa que já está acontecendo, e Kawall vê a aceleração como algo que talvez ainda esteja um pouco à frente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/2/20, sexta-feira.

 

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