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Quanto a China ainda vai crescer?

Estudo do FMI, baseado na análise setorial da economia chinesa, aponta desaceleração para ritmo de 4% em 2030.

Fernando Dantas

06 de dezembro de 2019 | 10h34

O crescimento chinês pode desacelerar para 5% em 2025, e para 4% em 2030, como resultado da virada da economia da indústria para os serviços e de tendências demográficas. Essa é uma das conclusões de recém-divulgado estudo do FMI sobre a transição econômica chinesa, realizado pelos economistas Min Zhu, Longmei Zhang e Daoju Peng.

O trabalho aparece num momento em que a China é um dos  focos de preocupação da economia mundial. O país foi um dos principais motores de crescimento global nas últimas décadas, mas agora faz uma transição de modelo, necessária nesse estágio, mas que implica desaceleração e riscos.

De quebra, a China está envolvida na guerra comercial com os Estados Unidos deflagrada por Donald Trump, o que torna a travessia ainda mais complicada.

O diferencial do estudo de Min, Longmei e Daoju é que, ao contrário da maioria das pesquisas sobre o tema, com foco em agregados macroeconômicos, a pesquisa toma como base a convergência de produtividade (em relação às economias avançadas) em 38 setores industriais e 11 de serviços da China.

Em quatro décadas de reformas e abertura econômica, notam os autores, a China cresceu em média 10% ao ano, triplicou sua renda per capita e tirou 800 milhões de pessoas da pobreza.

Na visão dos economistas, após a crise econômica de 2008, a China fez a transição de uma economia baseada em exportações para um modelo baseado em investimentos, e só se moveu na direção de um crescimento mais apoiado em consumo nos últimos anos, de forma gradual.

O modelo de exportações levou a um pico de superávit em conta corrente de 10% em 2007, e o modelo subsequente levou o investimento ao nível elevadíssimo de 45% do PIB, reduzindo sua eficiência e acumulando um grande endividamento. A dívida do setor não financeiro saltou de 134% do PIB para 257% entre 2008 e 2018.

Os autores revisitam diversos estudos e abordagens sobre a questão do crescimento futuro da China. Taiwan e Coreia do Sul, por exemplo, cresciam a 8% quando estavam no nível atual de renda per capita da China, o que faz uma corrente mais otimista prever expansão chinesa potencial de 7% ou mais nos próximos cinco anos. Mas essa hipótese esbarra na desaceleração global e no tamanho da China – que torna inviável que o mundo absorva o excedente do seu modelo exportador durante a transição completa para um nível de renda alto, como ocorreu com Coreia e Japão.

Por outro lado, há economistas que veem a China continuando a crescer mais que a média dos emergentes, por fatores como estabilidade política, reformas e abertura econômica contínuas, poupança elevada e grande investimento público em infraestrutura.

A abordagem de Min, Longmei e Daoju é pelo lado da oferta e setorial. Nos anos 50, a agricultura representava 50% do PIB da China e hoje caiu para 10%, mas a produtividade do setor agrícola multiplicou-se por dez. Os camponeses foram trabalhar na indústria, um setor duas a quatro vezes mais produtivo. De 1965 a 2012, a produtividade do trabalho na China cresceu a um ritmo acima de 9% ao ano.

A partir de 2012, contudo, depois que a participação da indústria no PIB registrou o recorde de 46% em 2011, a economia começou uma nova mudança, da indústria e da agricultura para os serviços. O problema é que a produtividade da indústria é 30% superior à dos serviços na China, e cresce mais rápido. Dessa forma, a transição atual inevitavelmente freia a economia.

Como nos países ricos, a participação da indústria no PIB chinês teve um pico (em 2012) quando o país tinha uma renda per capita de US$ 10 mil. Os autores apontam que o timing dessa desindustrialização é decisivo para que a China evite a armadilha da renda média, e até agora a transição setorial tem acontecido em linha com o ocorrido nos países avançados.

Enquanto a produtividade do trabalho industrial na China cresce a 8% ao ano, nos serviços ela desacelerou, depois de 2012, de 6% para 3%. Entre 1997 e 2015, a produtividade da indústria aumentou de 13% para 33% da americana, e dos serviços de 10% para 29%.

A demografia também é um fator de desaceleração na China, já que a população em idade de trabalhar vai cair até 2030.

Em termos dos setores industriais, a China está mais concentrada em alta tecnologia do que países de nível de renda semelhante (o nível chinês é semelhante ao da Bélgica e Espanha), com a contribuição de valor agregado total da indústria deste segmento tendo crescido de 24% para 52% entre 1980 e 2015. Em termos de emprego no setor da alta tecnologia, saiu-se de 28% do total da indústria nos anos 90 para 43% atualmente.

A produtividade nas indústrias high tech cresceu mais rápido do que no resto do setor, mas nos segmentos de baixa e média tecnologia a China está mais próxima da fronteira dos países avançados. Mas em todos os setores ainda há muito espaço para convergir, assim como em diferentes segmentos do setor de serviços.

É baseado num modelo que prevê as mudanças na fatia de valor agregado no PIB e na fatia do emprego da força de trabalho dos vários setores da indústria e dos serviços, além do crescimento da produtividade intersetorial, que os autores chegam à conclusão de que o crescimento potencial da China vai se desacelerar de 6,6% em 2018 para 4,2% em 2030, quando a produtividade chinesa terá alcançado 45% da americana – 56% no caso da indústria e 44% nos serviços (hoje estão em, respectivamente, 35% e 25%).

Três fatores podem melhorar esse quadro, segundo os pesquisadores: reforma das estatais (a China poderia ganhar um ponto porcentual adicional de crescimento do PIB potencial), abertura do setor de serviços (0,5 pp de ganho) e digitalização. Por outro lado, há dois riscos na direção contrária: a reversão da integração econômica global e uma crise financeira severa.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/12/19, terça-feira.

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