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Quanto o sistema de saúde aguenta

Estudo detalhado de demógrafos e economistas da UFMG (uma do Ipea) mostra capacidade de absorção dos hospitais em diferentes cenários da epidemia de Covid 19. Mais uma indicação de que temos que fazer quarentena, a meu ver.

Fernando Dantas

01 de abril de 2020 | 19h23

Um estudo recém-concluído, elaborado por um grupo de nove economistas e demógrafos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma pesquisadora do Ipea, faz simulações sobre a capacidade (ou falta dela) de o sistema de saúde brasileiro dar conta da epidemia do coronavírus.

As conclusões mais gerais são de que, em termos de leitos gerais, problemas começariam a surgir quando a Covid-19 alcançasse 1% da população brasileira, ou 2,1 milhões de pessoas. Até ontem, haviam sido reportados 4.256 casos, mas o número já pode estar em algumas dezenas de milhares, considerando-se a subnotificação.

Em 2019, o Brasil tinha 6.743 estabelecimentos hospitalares, com uma oferta total de 270.880 leitos gerais.

O maior gargalo são os leitos de UTI. A oferta total de leitos UTI hoje no Brasil é de 34.464 (excluindo pediátricos, neonatal e queimados), dos quais 48% estão disponíveis para o SUS.

Se uma taxa de infecção de 0,1% (210 mil pessoas) for atingida em um mês, 192 das 437 microrregiões de saúde brasileira (uma parcela de 44%) ficariam com a oferta de leitos de UTI comprometida. Dessas 192 microrregiões, pouco menos da metade nem tem leitos de UTI, já que, por envolverem tratamentos de maior complexidade, os leitos de UTI são organizados de forma macrorregional.

Se 1% da população brasileira for infectada em um mês, o sistema entra em colapso em termos de UTIs, com 53% das microrregiões operando acima da sua capacidade.

A situação dos aparelhos de ventilação mecânica é um pouco menos severa que a dos leitos de UTI, mas também é preocupante. Em 2019, o Brasil contava com 65.608 aparelhos, sendo a maioria (70%) disponível para o SUS.

Se 1% da população for infectada em seis meses, 26% das microrregiões vão se deparar com mais demanda do que a oferta dos aparelhos. Se 1% for contaminado em um mês, aquele percentual sobe para 38%.

Os pesquisadores também fazem simulações de longo prazo para cenários de infecção no Brasil, baseados na metodologia de estudo com objetivo semelhante feito nos Estados Unidos. A suposição implícita é ausência de mitigação do contágio e do não surgimento de remédio eficaz ou vacina no horizonte temporal das simulações.

Se, em 12 meses, 10% da população brasileira pegar o coronavírus, haverá falta maciça de leitos de UTI em praticamente todo o País. Curiosamente, a situação seria um pouco menos grave em termos de respiradores, mas ainda assim com demanda maior que a oferta em muitas microrregiões.

Os cenários com 20% ou 40% da população com coronavírus em seis meses são catastróficos.

Quando todos esses cenários são replicados com os percentuais sendo atingidos em 12 meses, em vez de seis, a situação permanece entre o péssimo e o catastrófico.

O estudo dos pesquisadores da UFMG e Ipea tem vários avanços. Considera diferenças etárias da população brasileira (descendo ao nível microrregional) tanto em termos de risco de contágio como de internação (com e sem UTI), usando parâmetros norte-americanos. A pesquisa também inclui a oferta pública e privada de saúde. E apresenta diversas combinações de cenários de propagação, novamente levando em conta as diferenças microrregionais.

Obviamente, como apontam os próprios autores, há limitações e uma agenda de mais investigação pela frente.

Os parâmetros de como a Covid-19 contamina e causa casos graves, de acordo com a idade, foram importados dos Estados Unidos. E não se levou em conta a maior probabilidade de contágio em favelas e outros lugares onde há muita concentração de pessoas dentro dos domicílios e de forma geral.

De qualquer forma, os resultados parecem reforçar o consenso sobre como se deve combater a pandemia no Brasil, justamente o conjunto de ideias que vem sendo combatido com afinco por Jair Bolsonaro.

Os números de curto prazo sugerem que a mitigação rigorosa, que evite a explosão dos casos, pode tornar a epidemia manobrável pelo sistema de saúde brasileira, ainda mais se houver um esforço bem coordenado de aumento de oferta de leitos normais, UTIs e respiradores.

O Brasil parece ainda muito longe de alcançar 1% da população infectada pelo coronavírus, o limite para problemas maciços de falta de capacidade do sistema de saúde. E mesmo evitar que 0,1% da população se contamine muito rapidamente, em um mês, parece um objetivo ainda ao alcance do País.

Já os cenários de longo prazo, que supõem mitigação nula ou muito deficiente, como quer Bolsonaro, são desastrosos de cabo a rabo.

Os comentários sobre o presidente nesta coluna são meus, e não dos pesquisadores.

Os autores do trabalho são Kenya Noronha (Economia/UFMG), Gilvan Guedes (Demografia/UFMG) Cássio M. Turra (Demografia/UFMG), Mônica Viegas (Economia/UFMG), Laura Botega (Economia/UFMG), Daniel Nogueira (Economia/UFMG), Julia Calazans (Demografia/UFMG), Lucas Carvalho (Economia/UFMG) Luciana Servo (IPEA) e Pedro Amaral (Demografia/UFMG).

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/3/2020, segunda-feira.