Quão baixa a inflação pode ficar este ano?

Itaú Asset Management (não confundir com o Departamento Econômico do Itaú-Unibanco) divulga projeção de inflação de apenas 3,3% em 2019, e mercado discute o quanto o IPCA pode novamente surpreender para baixo este ano.

Fernando Dantas

31 de janeiro de 2019 | 00h15

A Itaú Asset Management (não confundir com o Departamento Econômico do Itaú-Unibanco) divulgou ontem (quarta-feira, 30/1) projeções de IPCA de 3,3% em 2019 e de 3,7% em 2020. A Selic cairia para 5,75% no final deste ano e subiria para 7% até o fim de 2020.

As projeções da Itaú Asset chamaram a atenção por serem bastante baixas. A projeção do IPCA de 2019 do Focus Top 5 de curto prazo (a mais baixa entre os grupos do Focus) vêm caindo e já eram de 3,71% na última leitura, mas ainda assim estão bem acima do número da Itaú Asset.

Houve natural curiosidade sobre como a projeção de inflação do Itaú Asset se desdobra em seus diversos componentes. O colunista tentou obter essa informação junto à instituição, mas esta preferiu (neste momento) manter público apenas o número cheio.

Carlos Macedo, economista da gestora Canepa, no Rio, observa que a grande e persistente ociosidade na economia brasileira é o esteio para as projeções superbenignas de inflação. De um lado, há a lenta redução do desemprego, que ainda estava em 11,6% no trimestre móvel encerrado em novembro de 2018, último dado divulgado pelo IBGE.

O nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) dessazonalizado da indústria, por outro lado, está em queda ininterrupta nos últimos quatro meses, saindo de 76,7% em setembro para 74,3% em janeiro (74,8% em dezembro), segundo a Sondagem da Indústria da FGV.

Qualquer análise da inflação prospectiva, deste ano e dos próximos, é evidentemente suscetível ao que ocorrerá no front da reforma da Previdência e de outras iniciativas de política econômica do governo de Jair Bolsonaro. Dá mesma forma, é dependente de como evoluirá o cenário externo.

No momento, o mercado revela otimismo em relação a essas duas dimensões. A aposta é que Bolsonaro vai ter um sucesso bastante razoável com sua agenda econômica e que a liquidez e as baixas taxas de juros vão perdurar na economia dos países avançados.

Partindo-se dessas premissas, o câmbio no Brasil deve ficar bem-comportado. A projeção específica da Itaú Asset é de câmbio de R$ 3,60 no fim de 2019, e de 3,70% ao final de 2020. No Focus (todos os analistas), a última mediana das projeções é de, respectivamente, R$ 3,75 e R$ 3,78. No Focus Top 5 de curto prazo, R$ 3,90 e R$ 4,00; e no Top Five de médio prazo, 3,80% e 3,78%.

Nenhuma dessas projeções é alarmante e, na média, indicam taxas de câmbio à frente confortáveis para a inflação. Como observa Macedo, o pass-through (repasse cambial à inflação) tende a ser bem modesto diante de uma desvalorização moderada numa economia com muita capacidade ociosa.

Há muitos sinais de inflação baixa à frente, portanto, inclusive o IPCA-15 de janeiro, que, em 0,30%, ficou um pouco abaixo da mediana das estimativas dos analistas do mercado financeiro consultados pelo Projeções Broadcast, de 0,33%.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, nota que o gráfico de dispersão das projeções do IPCA divulgado pelo BC no início de janeiro já mostrava cerca de 1/3 dos analistas prevendo inflação em 2019 abaixo de 4% e praticamente nenhum com projeção acima do centro da meta, de 4,25%. Ele acredita que o porcentual de projeções do IPCA deste ano abaixo de 4% já deve ter aumentado em relação ao gráfico do BC.

Mas a projeção muito agressiva da Itaú Asset, de 3,3%, ainda é vista com cautela por outras casas em função da análise de componentes do IPCA. A última atualização das projeções de Carlos Thadeu Filho, do Ibre/FGV, por exemplo, apontava IPCA de 3,9% este ano, puxado por componentes como alimentação (4,7%) e preços administrados (4,6%). Os serviços são projetados para subir 4%.

Borges, da LCA, nota ainda que a média dos núcleos de inflação, embora ainda esteja confortavelmente abaixo da meta, teve uma subida relevante recentemente.

De qualquer forma, os ventos continuam a soprar de forma bastante favorável para o novo governo em termos da inflação. Resta ver se o cenário benigno será aproveitado para “consertar o telhado enquanto faz sol” ou para “tocar com a barriga”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/1/19, quarta-feira.

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