Quão grave é a crise na China?

Uma corrente de analistas acha que, mesmo com o mau sinal de que as autoridades econômicas estão relutantes em deixarem o mercado funcionar, queda das bolsa não reflete uma crise generalizada e intensa da economia chinesa.

Fernando Dantas

08 de janeiro de 2016 | 16h22

“’Bem, o timing desse relatório foi estranho’, disse ontem, com justiça, um dos nossos clientes, que vem sofrendo há bastante tempo”.

Esta foi a frase inicial do segundo relatório diário do ano da Gavekal, conhecida empresa de serviços financeiros, como sede em Hong Kong. A frase, na verdade, se refere, com ironia bem-humorada, ao primeiro relatório diário do ano da Gavekal, intitulado “Esqueçam o petróleo e a China, olhem para os Estados Unidos em 2016”. A autogozação é facilmente compreensível: o ano começou mal nos mercados globais em função de novos colapsos na bolsa chinesa e de renovada queda do preço do petróleo.

Os sócios da Gavekal, entre os quais se encontra o conhecido economista e jornalista britânico Anatole Kaletsky, mostraram humildade ao destacar o timing infeliz do primeiro relatório, mas não deram o braço a torcer. No segundo relatório, eles dizem que, apesar da sensação contrária, suscitada pelo comportamento dos mercados no início de 2016, eles mantêm a sua visão de que a China provavelmente não será uma grande razão de dor de cabeça para a economia global em 2016.

Na verdade, a chave para a visão da Gavekal sobre as perspectivas de 2016 está no relatório da terça-feira, 5 de janeiro (o segundo do ano): “É mais provável que, em vez de ser uma cópia carbono do ano passado, 2016 seja significativamente melhor ou pior”. Em seguida, os consultores distinguem esses dois cenários, nos quais o desempenho da China é crucial, e explicam por que consideram mais provável que 2016 seja melhor que 2015.

No cenário ruim, a desaceleração chinesa transforma-se numa deterioração mais profunda, os Estados Unidos encaminham-se para a recessão e a queda das commodities provoca das empresas de commodities minerais e energia. Porém, eles não consideram esse cenário provável, especialmente porque não estão pessimistas em relação à China. Na verdade, as maiores chances de que a economia global azede em 2016, para a Gavekal, vêm dos Estados Unidos.

A visão dos analistas é de que a queda do mercado acionário chinês não reflete nenhuma piora fundamental na economia do país, mas antes trapalhadas das autoridades econômicas chinesas ao lidar com mercados que em teoria – e de acordo com a própria estratégia oficial – deveriam ser progressivamente liberados.

Essa é opinião também do economista Lívio Ribeiro, especialista em China do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio. Ele explica que um dos motivos pelos quais as ações na China despencaram em dias recentes foi que restrições do governo a posições vendidas impostas em meados do ano passado, quando o mercado passou por outro surto de turbulência, expiravam esta semana. Desta forma, tanto participantes do mercado podem ter vendido em antecipação, prevendo que sem as restrições o mercado iria cair, quanto os grandes investidores podem ter forçado a queda para pressionar o governo a prorrogar as restrições, o que acabou acontecendo.

A Gavekal acrescenta mais duas possíveis causas: decepção dos investidores que esperavam mais um corte de juros e problemas no desenho do sistema de circuit-breaker da bolsa de Xangai.

De qualquer forma, como nota Ribeiro, “a bolsa chinesa representa uma parcela muito pequena da economia, seus setores principais não são representativos dos principais setores da economia chinesa e as ações respondem por uma parte pequena da riqueza das famílias”. Assim, ele não crê que os problemas no mercado acionário reflitam uma “malaise” maior e generalizada da economia da China.

Outro fator que tem provocado preocupações com a China é a depreciação do renminbi, mas Ribeiro considera que, com as mudanças no sistema cambial no ano passado que o tornaram um pouco mais flexível, a perda de valor da moeda chinesa simplesmente reflete o fato de que a economia está se desacelerando de forma organizada e que há uma expressiva saída de capitais.

“Não se trata de nenhum colapso, mas sim do fato de que, com menos amarras ao funcionamento do mercado, os preços relativos tendem a se ajustar, e isto pode se referir tanto ao câmbio quanto ao mercado acionário”, diz o analista.

Mas é exatamente daí que ele deriva um ponto de preocupação. Nas intervenções desastradas na bolsa, as autoridades econômicas chinesas mostraram que estão vacilantes em seguir o caminho de permitir que os mecanismos de mercado funcionem mais livremente na China. E este é um elemento importante da estratégia mais geral, cujo objetivo fundamental é fazer a transição de uma economia exportadora com superinvestimentos para uma economia de serviços com maior consumo interno.

Mas mesmo aí Ribeiro enxerga exagero em algumas avaliações: “A intervenção nas bolsas, que é um setor cuja participação na economia chinesa não é tão grande, é um sinal ruim, mas não necessariamente um passo decisivo na direção errada – é uma questão de gradação”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 7/1/15, quinta-feira.

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