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Decretação de quarentena ou cautela individual?

Pesquisadores da Universidade de Chicago fazem estudo indicando que redução da circulação das pessoas na pandemia foi bem mais causada pela decisão individual de se protegerem do que da decretação pelos governos de quarentena.

Fernando Dantas

29 de junho de 2020 | 15h20

No momento em que as determinações de quarentena por estados e municípios vêm sendo flexibilizadas no Brasil, e em que processo semelhante ocorre em vários outros países, uma questão importante é saber qual vai ser o peso dessas decisões governamentais no aumento da circulação e na transmissão do coronavírus.

Diferentemente do que muitos pensam, o peso das decisões de autoridades de flexibilizar a quarentena, em termos de aumento de circulação de pessoas, pode não ser tão forte. E a razão é que o peso das decisões iniciais de decretar quarentena pode ter sido igualmente menor do se julga.

Essas constatações estão num estudo recente, em versão preliminar – aplicado ao caso americano, e é bom ter cuidado ao transferir as conclusões para países e cultura diferentes – dos economistas Austan Goolsbee e Chad Syverson, da Universidade de Chicago.

Eles utilizam dados de telefones celulares relacionados a visitas a 2,25 milhões de estabelecimentos comerciais de 110 diferentes setores entre 1º de março e 16 de maio para estimar uma queda de 60% na circulação a pé nos Estados Unidos.

Segundo a pesquisa, apenas 7 pontos porcentuais daquele montante da queda são explicados por restrições legais, e o papel das escolhas individuais de ficar em casa e se locomover menos – certamente ligadas ao medo do contágio – foi muito maior para explicar a diminuição do tráfego a pé das pessoas.

O método empregado pelos dois economistas para chegar a essas conclusões foi o de comparar a circulação a pé em áreas que abrangem jurisdições diferentes. Por exemplo, numa área contígua entre Illinois e Missouri, sendo que o primeiro estado decretou quarentena uma semana antes.

Ou, no caso da conurbação de cinco cidades entre os estados de Iowa e Illinois, conhecida como “Quad Cities”, em que Moline e Rock Island, em Illinois, tiveram quarentena decretada, enquanto Davenport e Bettendorf, em Iowa, não tiveram.

Segundo os autores, comparando estabelecimentos similares numa mesma zona de circulação de pedestres, mas na qual uma parte se localiza numa jurisdição com quarentena decretada, e a outra não, houve enormes queda de circulação de consumidores em ambas as partes. A queda da circulação na área com quarentena foi um décimo maior que a da área sem quarentena.

Eles também encontraram evidências de que esse componente voluntário da queda da circulação está ligado ao medo da infecção pela Covid-19. Dessa forma, a redução do tráfego de pedestres está correlacionada fortemente com os números locais de morte pela pandemia, e, dentro de um mesmo setor, a redução da circulação foi bem maior nos estabelecimentos grandes e movimentados, comparados aos pequenos.

Os economistas também apontam que, quando estados e municípios (counties) revogaram as restrições à circulação mais para o fim do período por eles analisados, a recuperação da atividade econômica foi similar em tamanho ao efeito (pequeno) que eles estimaram para a queda de circulação devida a restrições legais.

Esse, inclusive, é um ponto preocupante das conclusões do trabalho do ponto de vista econômico (embora possa ser até tranquilizante do ponto de vista da saúde). A retomada da economia, mesmo depois de relaxada a quarentena, pode ser freada pela relutância das pessoas em circular por medo da Covid-19. É claro que, quanto maior for o número de mortes, e quanto maior for a percepção de que a pandemia ainda está descontrolada, maior pode ser o efeito.

O governo brasileiro parece ter ignorado esse risco desde o início da pandemia no País.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/6/2020, sexta-feira.

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