Quase no fim

Penúltima semana de um ano terrível fecha em relativa calma nos mercados. Por quê?

Fernando Dantas

27 Dezembro 2016 | 17h17

A penúltima semana de um ano terrível vai terminando em relativa calma. No momento em que esta coluna é redigida, a bolsa sobe 1,2% (depois de um período de bastante queda, é verdade), o dólar é cotado a R$ 3,27 e a rentabilidade do título de dez anos do Tesouro norte-americano, que chegou a tangenciar 2,7%, está em 2,53%. Tanto lá fora quanto aqui dentro, portanto, parte-se para as celebrações natalinas num clima que está longe do fim de mundo que tantas vezes se pressagiou durante o ano.

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, nota que a ansiedade pré-Trump reduziu-se de duas semanas para cá nos mercados globais, e especialmente após a última decisão do ano do Fed, que elevou em 14/12, quarta-feira, os Feds Funds para a faixa entre 0,5% e 0,75%, e sinalizou três altas para 2017.

Aparentemente, os mercados resolveram relaxar e deixar as especulações mais nervosas sobre os efeitos da Trumponomics para o próximo ano, e possivelmente para depois da posse do presidente eleito em 20 de janeiro. Adicionalmente, observa Kawall, os fluxos cambiais para o Brasil têm sido particularmente bons, levando em conta os efeitos sazonais, no mês e na última semana.

Mas há também uma dimensão doméstica na relativa calmaria, na visão de alguns analistas. Para Samuel Pessôa, sócio e economista-chefe da gestora Reliance, e pesquisador associado do Ibre/FGV, o pior momento do governo Temer foi há dez dias, na terça-feira, 13, quando o líder do Democratas no Senado, Ronaldo Caiado (GO), sugeriu que o presidente deveria renunciar. A crise no governo, claro, veio das péssimas notícias sobre a atividade econômica e da sucessão de escândalos e denúncias que atingiu Temer e vários dos seus mais próximos auxiliares.

“Se pegar aquela data, que foi o fundo do poço, dá para ver que o governo reagiu desde lá, tomou uma série de iniciativas”.

A visão de Kawall é parecida. Ele nota que o governo Temer desenvolveu o cacoete, que ele considera altamente positivo, de “avançar com a agenda de reformas sempre que surgem problemas, seja na economia, no Congresso, de conflito entre Poderes, revelações da Lava-Jato, etc.”.

O economista do Safra ficou muito bem impressionado com as propostas de reforma trabalhista. “A última vez que se falou nisso foi no governo do Fernando Henrique Cardoso”, observou.

Ao contrário dos que veem algum toque populista na liberação das contas inativas do FGTS, Kawall considera um passo positivo, que contribui para o processo de desalavancagem das famílias, mexe num tema tabu – o dos mecanismos de poupança compulsória – e corrige parcialmente a injustiça de trabalhadores terem uma aplicação forçada que rende muitíssimo menos que o custo do seu endividamento.

Da mesma forma, ele vê com muitos bons olhos as medidas para racionalizar o funcionamento dos cartões de crédito no Brasil, que têm juros absurdamente altos, ligados a uma série de distorções como o parcelamento “sem juros” das compras nas lojas – é claro que há um custo financeiro nessas operações que de alguma forma está sendo embutido ou transferido.

Um último fator que pode estar contribuindo para a calma no mercado interno, destacado por Pessôa, são as boas notícias no front inflacionário, com destaque para a forte queda do núcleo de serviços preferido do BC no IPCA-15 de dezembro.

Na verdade, o Brasil está no início de um longo ciclo de redução da Selic, pavimentado pela recuperação da credibilidade da política monetária, que talvez tenha dado seus primeiros passos hesitantes ao fim da gestão de Tombini, mas que sem dúvida foi consolidada desde junho, quando Ilan Goldfajn assumiu a presidência do BC e trouxe diretores como Carlos Viana e Tiago Berriel.

Como costuma acontecer no Brasil quando a inflação parece estar sendo domada, o BC entra numa espécie de inferno astral, com ataques por todos os lados como se a política monetária fosse a única e exclusiva responsável pelo retardamento da recuperação. O natural aumento do juro real quando as expectativas inflacionárias finalmente caem com força transforma-se num argumento contra o BC, mesmo sendo inevitável e corrigível. Ainda assim, parece haver sensatez suficiente – tomara – na presidência da República e no Ministério da Fazenda para que o BC possa conduzir com segurança um grande alívio monetário sem jogar fora, junto com água do banho, o controle da inflação. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/12/16, sexta-feira.