Que eleitor Bolsonaro e Lula disputam?

Números levantados pelo cientista político Fernando Limongi ajudam a entender o que o atual presidente e o ex-presidente tem a ganhar e a perder no embate entre os dois pelo voto do brasileiro.

Fernando Dantas

12 de novembro de 2019 | 18h34

Com a volta de Lula ao cenário político, qual tipo de eleitor ele pode ganhar de Bolsonaro? Ou, visto pelo outro lado, qual tipo de eleitor, que um dia votou no PT, Bolsonaro tem condição de manter?

Obviamente, ninguém tem condição de responder essas perguntas com um grau mínimo de certeza no momento. Mas alguns exercícios realizados pelo cientista político Fernando Limongi, da EESP/FGV, dão pistas importantes para se construir cenários pós-libertação de Lula.

Limongi partiu da distribuição das urnas das eleições por centis (centésimos) da média do grau de educação formal. Assim, o primeiro centil é o de menos educação formal, de zero ou praticamente zero anos de estudo em muitos casos, e o centésimo centil é o de maior educação.

Tomando o Brasil como um todo no segundo turno de 2014, o que se tem é uma figura extremamente simétrica entre a distribuição da educação no eleitorado petista e tucano. No primeiro centil (o menos educado) das urnas, 80% dos votos foram para Dilma e 20% para Aécio. No centésimo centil, cerca de 76% votaram em Aécio e 24% em Dilma.

Em torno do 50º centil, as votações nos dois candidatos são de praticamente 50% cada um. O voto em Aécio ultrapassa ligeiramente o de Dilma no 52º centil.

Tomando-se a educação como uma aproximação da renda, pode-se dizer que o Brasil do segundo turno de 2014 dividiu-se ao meio (e de fato, o resultado final foi muito apertado), com a seguinte fórmula: à medida que a riqueza aumenta, cresce também a propensão a votar no tucano; ou, o que é a mesma coisa, à medida que a pobreza aumenta, cresce também a propensão a votar na petista.

Limongi explica que essa polarização entre PT e PSDB, com essas características, prevaleceu na política brasileira entre 2006 e 2014. Em 2018, ela ruiu com a eleição de Bolsonaro. O PT sofreu sérias perdas, mas, no caso do PSDB, a implosão foi mais radical: os tucanos simplesmente deixaram de ser uma força eleitoral relevante.

É interessante, entretanto, saber como mudou a configuração entre mais educados e menos educados, isto é, entre mais ricos e mais pobres, com o advento do bolsonarismo a partir de 2018.

O que o mesmo exercício, por centis da média de educação das urnas, mostra é que a tendência dos mais pobres votarem mais no PT persistiu em 2018, mas com o PSL (isto é, Bolsonaro) tomando o lugar do PSDB como opção eleitoral que aumenta à medida que cresce a educação/renda do eleitorado.

Mas há algumas diferenças significativas entre a polarização PT/PSDB e a polarização PT/Bolsonaro.

A primeira é que o ponto em que as linhas se encontram (isto é, o centil de média de educação das urnas em que há o mesmo número de eleitores do PT e de Bolsonaro) é muito mais puxado para a parte de menor educação média da distribuição. Este ponto de encontro não está mais no 50º centil, mas sim no 23º, no primeiro turno de 2018; e no 25º, no segundo turno.

Dito de outra forma, Bolsonaro conseguiu tirar do PT muitos eleitores menos educados/mais pobres que não votavam nos tucanos quando eram estes que polarizavam com o partido de Lula.

Mas outra característica que chama atenção na polarização entre PT e bolsonarismo é um recorte regional extremamente forte. Assim, no Nordeste no segundo turno de 2018, o “encontro das linhas”, isto é, o centil de educação média das urnas em que os votos num candidato ou no outro são praticamente iguais, é 95º – isto é, quase no topo da distribuição igual.

Já no Sudeste, o mesmo ponto é no oitavo centil, isto é, quase no piso da educação/renda. Esses números do Nordeste e Sudeste levam em conta a distribuição nacional dos centis de média de educação das urnas. Isso quer dizer, segundo Limongi, que o contingente dos oito primeiros centis de educação, que votaram mais em Haddad do que em Bolsonaro, é ainda menor do que parece.

Para Limongi, esses dados parecem indicar que “o carisma do Lula entre os mais pobres pode ser mais fraco do que o PT pensa”. Isto é, a população mais pobre do Sudeste e Sul não está votando no PT.

Já no Nordeste, onde os mais pobres ainda votam maciçamente no PT, mas esta preferência estende-se também a camadas superiores da distribuição de educação e renda, o PT conta com vários governadores (Bahia, Ceará e Piauí – e há outros não do PT, mas da esquerda) de bastante sucesso (que se reelegeram em primeiro turno), o que também pode ter puxado o voto em 2018.

A relação desses governadores petistas do Nordeste com a cúpula do partido, concentrada no Sudeste, tem suas complicações, e não se sabe como estará o seu (dos governadores) poder de voto em 2022. Limongi nota que, reeleitos em 2018, não poderão concorrer a mais um mandato. Eleger um sucessor é uma tarefa mais complicada e abre espaço potencial para competidores.

De qualquer forma, a disputa entre bolsonarismo e petismo na próxima eleição presidencial pode ser dar na capacidade do primeiro de atrair o voto dos pobres nordestinos (e aí terá que ter algo a oferecer além de uma mera recuperação tímida da economia), e na capacidade do PT de recuperar o voto dos pobres no Sudeste e Sul.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/11/19, segunda-feira.

Tendências: