Queda da exportação é o vilão

Recuo das exportações responde por maior parte da piora das contas externas em 2019, como mostram os números e análise de Antonio Madeira, da MCM.

Fernando Dantas

27 de novembro de 2019 | 19h34

De janeiro a outubro de 2018, o saldo do câmbio contratado, tanto no segmento comercial quanto financeiro, foi positivo em US$ 18,4 bilhões. No mesmo período de 2019, negativo em US 21,5 bilhões. A piora de 2018 para 2019, portanto, foi de US$ 39,8 bilhões (a diferença de 0,01 é por causa do arredondamento).

Antonio Madeira, da consultoria MCM, observa que a maior parte dessa piora, ou 65%, vem da balança comercial. De janeiro a outubro de 2018, houve um saldo de câmbio contratado no segmento comercial de US$ 39,5 bilhões. No mesmo período de 2018, o saldo positivo foi de US$ 13,6 bilhões. Recuo, portanto, de US$ 25,9 bilhões.

Essa contração do câmbio contratado no segmento comercial, por sua vez, é praticamente toda (95%) devida ao recuo do câmbio contratado de exportação: US$ 187,4 bilhões de janeiro a outubro de 2018, comparados a US$ 162,6 bilhões no mesmo período de 2019, com uma diferença de US$ 24,7 bilhões.

Já o câmbio contratado das importações, nos dois períodos acima, ficou praticamente igual: US$ 147,9 bilhões em 2018 e US$ 149,2 bilhões em 2019, com avanço de apenas US$ 1,3 bilhão.

Há uma peculiaridade no câmbio contratado de exportação. Atualmente, os exportadores podem deixar recursos no exterior, desde que os usem para quitar compromissos lá fora. Há, portanto, uma diferença entre os números da exportação da balança comercial e os números do câmbio contratado de exportações.

De janeiro a outubro de 2018, o câmbio contratado das exportações correspondeu a 94% do valor total das exportações (o restante, portanto, ficando no exterior). No mesmo período de 2019, essa relação caiu para 88%.

Essa diferença não é trivial. Se toda a receita de exportação em 2019 (até outubro) tivesse sido internalizada, haveria uma entrada adicional de divisas de US$ 22,7 bilhões.

Mas talvez uma conta mais realista seja a de quanto a mais de divisas teria entrado caso a proporção entre câmbio contratado de exportação e exportações totais (sempre de janeiro a outubro) tivesse se mantido nos mesmos 94% de 2018: seriam US$ 11,9 bilhões a mais, o que não é desprezível.

E por que as empresas brasileiras estão internalizando uma proporção menor das suas exportações este ano? A resposta que salta aos olhos, reiterada por Madeira, é a queda dos juros no Brasil, que reduz o custo de oportunidade de manter dólares lá fora.

Na parte financeira do câmbio contratado, o Brasil aumentou o déficit, entre janeiro e outubro de 2018 e o mesmo período de 2019, de US$ 21,1 bilhões para US$ 35,0 bilhões, ou em US$ 13,9 bilhões.

Nesse aumento do déficit há múltiplas causas, como observa o economista da MCM. Empresas financeiras brasileiras estão liquidando dívidas em moeda estrangeira e o fluxo de recursos para o mercado de renda fixa no Brasil está se reduzindo. Os dois fenômenos estão ligados aos juros baixos no Brasil.

Mas Madeira acrescenta que “o mercado acionário também não ajuda”, quer dizer, a bolsa brasileira tem sido pouco atraente para os estrangeiros. E há também, claro, as remessas de dividendos.

No frigir dos ovos, a queda das exportações é o grande vilão da piora das contas externas brasileiras este ano, segundo Madeira. De janeiro a outubro de 2018, o déficit em conta corrente foi de 2,08% do PIB, subindo para 2,22% no ano passado completo. Em 2019, até outubro, o déficit em conta corrente está em 3,02%. A queda das exportações explica 0,9 ponto porcentual da piora.

Já esse recuo das exportações, como se sabe, deve-se à desaceleração da economia global e aos problemas econômicos e políticos de importantes parceiros do Brasil, como Argentina e outros países latino-americanos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/11/19, terça-feira.