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Queda de braço PT X PMDB: trunfos e pontos fracos

Fernando Dantas

13 de março de 2014 | 17h07

A julgar pela história recente, o PT deve vencer o PMDB na queda de braço em que este último luta por mais espaço na coalizão governista, já que o custo de ir para a oposição no sistema político brasileiro é muito alto. Por outro lado, 2014 é um ano excepcional, com eleições presidenciais com dois candidatos competitivos de oposição, uma economia fraca que ameaça o ainda pujante mercado de trabalho, problemas no setor elétrico e o espectro das manifestações populares antes e durante a Copa. Dessa forma, a mão do PMDB na disputa com o PT está reforçada, e o resultado do embate desta vez não necessariamente seguirá o padrão histórico. Ele dependerá, na verdade, da destreza e do sangue-frio de cada um dos principais sócios da atual coalização governista.

A análise é do cientista político Carlos Pereiro, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio.

Para Pereira, a crise política entre o governo e bancada peemedebista na Câmara, liderada pelo deputado Eduardo Cunha (RJ), é um risco a mais para a candidatura Dilma, o que não quer dizer que o PMDB necessariamente levará a melhor. Se a disputa evoluir para uma ruptura ou mesmo uma atitude de sabotagem do PMDB sem rompimento formal, o prejuízo para Dilma será grande, avalia o cientista político.

“Assim como o PT é o partido com mais identidade, o PMDB é o partido como mais capilaridade, e a presidente vai precisar dessas conexões locais na campanha”, diz Pereira.

Ele lembra ainda a capacidade de o PMDB provocar estragos com eventual apoio a candidaturas de oposição na Bahia e Ceará, além do cenário de enfrentamento sangrento dos dois parceiros que já se configura no Rio de Janeiro.

“Se o PMDB tiver sangue frio de se manter numa atitude de cobrança até o momento de alguma votação importante para o governo, e nela impuser uma derrota fragorosa para a Dilma, é possível que o PT se veja forçado a ceder”, conjectura Pereira (esta coluna foi publicada antes da aprovação do pedido de criação de uma Comissão Externa da Câmara para investigar os negócios da Petrobrás no exterior na terça-feira e de outras derrotas subsequentes do governo na Câmara, que levaram a escolha de dois peemebedistas para os ministérios da Agricultura e do Turismo).

Por outro lado, o custo para o PMDB de uma eventual ruptura é muito alto. “A condição de oposição é muito ingrata no sistema político brasileiro, e os partidos oposicionistas tendem a minguar”, diz o cientista político.

Para ele, uma das características marcantes das instituições políticas nacionais é o volume enorme de recursos financeiros e políticos – na forma de verbas, cargos e influência – que o Poder Executivo distribui direta ou indiretamente para os seus aliados, tanto na base Legislativa como nos governos estaduais e municipais. Desta forma, partidos sem perspectiva de conquistar o governo no futuro próximo – como o PMDB, que teve apenas uma única e infeliz candidatura própria a presidente pós-redemocratização, de Ulysses Guimarães em 1989 – pagam um grande preço ao saírem do governo para a oposição.

Pereira dá como o exemplo o PSB de Eduardo Campos, que saiu da coalização para lançar candidatura própria à presidência. Segundo o cientista político, que é pernambucano, recursos federais para um projeto de navegabilidade do rio Capiberibe foram contingenciados depois que o governador Campos lançou-se a presidente.

Na literatura acadêmica sobre gestão de coalizações políticas, explica Pereira, há desde a ideia de que uma distribuição equitativa (de acordo com o número de parlamentares da base) de cargos e verbas entre os parceiros aumenta a estabilidade e a eficiência do governo até autores que consideram que o partido do chefe de Estado deve receber proporcionalmente mais.

“O problema é saber o quão mais o parceiro principal da coalização poderia ter”, emenda o cientista político. Ele acha que o atual governo brasileiro é um caso extremo, com o PT tendo mais que o triplo dos ministérios do PMDB, apesar do equilíbrio em termos de deputados federais e senadores de cada um dos partidos. Esta desigualdade entre representantes e participação no bolo, por sua vez, deriva exatamente do poder do Executivo (com sua capacidade de distribuir recursos), que foi esticado até o limite pelo atual governo.

“Se quiser aumentar sua fatia, o PMDB tem que mostrar de maneira crível que pode prejudicar os interesses do governo – é assim que funciona com esse tipo de coalizão gelatinosa, em que a disputa por verbas e poder é maior do que o projeto programático”, avalia Pereira.

Rio de Janeiro

Para Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj), a disputa entre os dois principais parceiros da coalizão governista terá impactos particularmente graves no Rio de Janeiro. Ele não vê tantos riscos para a candidatura Dilma, pois acha que o eleitor fluminense provavelmente atribuirá os problemas no Estado ao PMDB, e votará para presidente mais com base no desempenho da economia.

Em relação ao futuro do Rio, no entanto, Santoro está muito preocupado. O cientista político nota que, pela primeira vez em muito tempo, há um alinhamento entre governo federal, estadual e da capital, no caso do Rio. Mas ele acha que, com os problemas do governador Sérgio Cabral e do prefeito Eduardo Paes, no cenário pós-manifestações, a aliança rachou de forma muito ruim, “com mortos e feridos por todos os lados”.

A queda do empresário Eike Batista, abordada no recém-lançado livro “Ascenção e Queda do Império X”, do jornalista Sergio Leo, é um pedaço da história econômica desse processo de soerguimento e nova ameaça de queda do Rio.

Todos os principais pré-candidatos ao governo do Estado têm mais de 50% de índice de rejeição, os avanços na segurança pública parecem estar sendo minados e há um retorno, segundo Santoro, “de um estilo de política conflituoso que caracterizou o Rio antes da atual aliança”. Pior, para ele, “é um cenário em que o alinhamento se desfaz próximo das Olimpíadas”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na sexta-feira, 7/3/14.

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