Queda “incrível” do varejo em dezembro

Resultado do varejo em dezembro foi enorme surpresa negativa. A desaceleração forte da economia a partir do final do ano, com a redução do auxílio emergencial (que acabou em janeiro), o efeito da alta da inflação na renda e o agravamento da segunda onda, traz dilemas difíceis para o BC e a equipe econômica.

Fernando Dantas

11 de fevereiro de 2021 | 16h07

Não é todo dia que um analista do mercado financeiro descreve um indicador econômico como “incrível”. Mas foi isso que aconteceu hoje, quando, segundo  matéria de Eduardo Laguna no Broadcast, Bruno Musa, sócio da Acqua Investimentos, classificou a queda do varejo em dezembro na Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) como “incrível”.

E, de fato, os resultados da PMC de dezembro vieram impressionantemente ruins.

No conceito restrito, que exclui veículos e material de construção, o varejo em dezembro caiu 6,1% ante novembro (todos os resultados nessa base de comparação são dessazonalizados), e cresceu 1,2% ante dezembro de 2019.

A pior estimativa para esses dois números do Projeções Broadcast era de, respectivamente, -2% e 2%.

No conceito ampliado (que inclui aqueles dois segmentos), o varejo em dezembro recuou 3,7% ante novembro e cresceu 2,6% ante dezembro de 2019.

As piores projeções eram de, respectivamente, -3,2% e 3,3%.

No ano completo de 2020, o varejo terminou muito próximo da pior projeção nos dois conceitos: 1,2% de crescimento, comparado a 1,3% de projeção, no restrito; e -1,5%, comparado a -1,4%, no ampliado.

Motivos não faltam para o varejo desacelerar em dezembro: redução do auxílio emergencial, aceleração da inflação, antecipação de compras na Black Friday, desemprego e medo de desemprego etc.

Mas o que não se esperava é que a pancada fosse tão forte.

“Na verdade, foi uma antecipação do que era esperado para janeiro”, comenta Silvia Matos, coordenadora de macroeconomia do Ibre-FGV.

Um dado decisivo, ela acrescenta, é a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de dezembro, a ser divulgada amanhã. As perspectivas não são otimistas.

Segundo Silvia, o dado do varejo, ainda mais se for reforçado pelo dos serviços, dá mais base para a projeção de PIB negativo no primeiro trimestre.

A previsão do Ibre é de -0,5% no 1º tri, com crescimento de 3,5% em 2021. Mas a chance dessa projeção para o ano ser revisada para baixo existe (aguarda-se o resultado amanhã da PMS e do Indicador de Atividade Econômica, IAE, do Ibre, de dezembro, preditor do PIB).

Os dados do varejo de dezembro (novamente, se reforçados por um resultado ruim da PMS amanhã) também tendem a suavizar as perspectivas do previsto início de um ciclo de alta da Selic pelo Banco Central. O mercado de maneira geral estava entre março e maio para o pontapé inicial, e agora este segundo mês ganhou força.

Por outro lado, as notícias da fraqueza da economia neste início de ano reforçam o apelo político da recriação do auxílio emergencial – algo que o mercado teme, pelo risco fiscal.

Esse duplo impacto tende a mexer com o mercado, baixando os juros curtos e elevando os longos, tornando a curva mais empinada – tudo o que não se quer.

Esse efeito foi sentido hoje, e pode se ampliar casos maus sinais da atividade econômica continuem surgindo e o Congresso sinalize que não vai dar muito ouvido à preocupação da equipe econômica de que qualquer substituto do auxílio venha num desenho com responsabilidade fiscal – incluindo avanços no front das reformas, para compensar.

“O problema é que a inflação está subindo por causa do câmbio e o crescimento está desacelerando”, diz Carlos Kawall, diretor do Asa Investiments, resumindo a encrenca em que se encontra o BC.

Para Kawall, é cabível pensar num auxílio emergencial bem focado e por tempo limitado, algo com R$ 20 bilhões ao longo de poucos meses, como uma despesa extraordinária, extrateto.

Ele alerta, entretanto, que isso não deve ser visto como uma medida para embalar a economia, e sim como uma forma de suavizar o impacto social da segunda onda, enquanto a vacinação não atinge estágio mais avançado.

A recuperação da atividade depende, para ele, de confiança e juros baixos – o que, por sua vez, exige avanços na agenda fiscal de reformas e um equacionamento adequado da situação fiscal.

Os juros baixos, em particular, dependem do câmbio, que sua vez dependem de maior segurança fiscal e, portanto, de reformas.

E há riscos.

“Se o encaminhamento do auxílio evoluir mal, se vierem sinais ruins, o BC vai acabar tendo que entrar [com o início do ciclo de alta da Selic] mais cedo e com mais força”, conclui Kawall.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcat em 10/2/2021, quarta-feira.