Quem com ferro fere…

Reportagem sobre contas em paraíso fiscal de Paulo Guedes e Roberto Campos Neto deve levar à averiguação sobre possíveis malfeitos. Mas acusação de que eles "desvalorizaram" real por ter dólares no exterior não se sustenta e é demagógica.

Fernando Dantas

04 de outubro de 2021 | 18h51

A mediocridade do debate político sobre economia no Brasil é, sem dúvida, um fator dentre o conjunto de causas da longa estagnação comparativa do desenvolvimento socioeconômico nacional, que já dura 40 anos.

O debate em si, entre economistas profissionais, ainda é centrado em discordâncias muito acentuadas entre grupos que, no Brasil, foram batizados de “ortodoxos e liberais”, de um lado, e “heterodoxos e desenvolvimentistas”, do outro.

Por mais que se critique um campo ou outro, ao menos há uma conversa inteligível.

Quando o tema chega à esfera política, porém, não há limites para o populismo e a demagogia, mesmo de quem não se deveria esperar tal comportamento.

Ontem, o psolista Guilherme Boulos, a propósito das  denúncias sobre supostos malfeitos em contas em paraísos fiscais (declaradas) de Paulo Guedes, ministro da Economia, e Roberto Campos Neto, presidente do BC, escreveu em sua conta de Twitter que “Paulo Guedes lucrou às custas da fome do povo brasileiro”. 22,2 mil seguidores deram “like” no ‘tuíte’ até o momento em que esta coluna foi escrita.

Não é minha intenção entrar, neste artigo, no mérito das denúncias, se são cabíveis ou não, o que deve ser investigado.

Mas a ideia de que Guedes e Campos conspiraram para desvalorizar o câmbio para aumentar em reais recursos em dólares fora do País é de um ridículo atroz.

Vamos aos fatos. Desde a eclosão da pandemia, o real sofreu fortíssima desvalorização, como muitas outras moedas do mundo, em relação ao dólar.

No Brasil, o movimento foi particularmente acentuado, por múltiplas causas. Uma das principais foi o descontrole fiscal, contra o qual Guedes – com toda a sua inabilidade como gestor e no contexto da pavorosa condução política do governo Bolsonaro – inutilmente vem lutando.

Também se atribui a desvalorização excessiva do real à derrubada da taxa Selic até 2% no ano passado pelo BC operacionalmente autônomo.

Esse movimento foi defendido por alguns economistas heterodoxos, com tendência mais “dovish” (mais preocupados com atividade e emprego), e criticado por muitos economistas ortodoxos, mais “hawkish (mais preocupados com inflação)”.

É de uma irresponsabilidade quase surreal acusar não só Campos Neto, mas todo o Copom, de ter baixado a Selic só para valorizar em reais os investimentos do presidente do BC no exterior.

Toda as decisões do BC no regime de metas de inflação são amplamente justificadas e explicadas numa série de documentos públicos, como comunicados, atas e o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), além de toda a rotina de apresentações e palestras públicas dos diretores do BC.

É possível que o BC tenha errado em baixar tanto a Selic, uma linha de ação defendida por alguns heterodoxos e combatida por vários ortodoxos, e que isso tenha contribuído para desvalorizar o real? Sim, mas isso é uma discussão técnica para economistas.

Acusar sem nenhuma prova toda a diretoria do BC de ter feito um conluio ilegal para desvalorizar o real – algo que sempre é incômodo para qualquer equipe econômica, pois se reflete como impopularidade do governante e desagrada a ala política do governo – é apelação populista rasteira.

Finalmente, há a política cambial, pela qual swaps foram vendidos durante este ano para se contrapor à desvalorização do câmbio, e não para reforçá-la.

Boulos é apontado por alguns de seus seguidores como representante de uma esquerda polida e moderna, ainda que comprometida com ideias mais radicais (uso a palavra sem conotação negativa) e mais distante do centro.

Mas falas como a mencionada acima – que se espalham como memes nas redes sociais e atiçam o fanatismo passional e irrefletido – revelam um discurso tosco de diretório estudantil nos anos 70 e 80.

São um desserviço à disputa política democrática. A mesma demagogia e o mesmo populismo que se voltam agora contra um ministro indesejado – independentemente de se vir a comprovar nas informações da revista piauí fatos realmente comprometedores – pode amanhã ser usada contra algum personagem benquisto.

A esquerda brasileira, que tanto reclama do “lawfare” contra Lula e Dilma – por vezes com razão – deveria ser a primeira a ter esse risco sempre em mente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/10/2021, segunda-feira.