Quem deve ser a “bola da vez”?

Cientista político Octavio Amorim Neto vê Bolsonaro "estruturalmente derrotado" mas acha que alvo da pressão das forças democráticas deve se transferir para quem dá sobrevida ao presidente, como o Centrão.

Fernando Dantas

10 de setembro de 2021 | 21h14

O recuo vergonhoso de Bolsonaro depois de seus ataques à democracia e ao Estado de Direito no sete de setembro não deve ser lido com lentes de muita sofisticação analítica.

Carismático para os seus seguidores, determinado e instintivamente astuto na sua carreira política, Bolsonaro não obstante age com pouca estratégia racional.

Com reduzida ou nenhuma bússola moral, o presidente parece aquém da vergonha que o recuo provoca ou mesmo do orgulho que o justo enfrentamento causa. De forma primária, mas não necessariamente ineficaz no teatro escabroso da atual cena política brasileira, Bolsonaro alterna agressão e recuo ao sabor do instinto e das circunstâncias.

De qualquer forma, na visão do cientista político Octavio Amorim Neto (Ebape-FGV), o presidente está nas cordas.

Para o pesquisador, Bolsonaro já há muito perdeu a credibilidade junto aos seus opositores como adversário digno de tomar parte na disputa democrática. Agora, ele começa a ver sua credibilidade se deteriorar junto ao seus próprios correligionários.

Dessa forma, como avalia o analista, “Bolsonaro está estruturalmente derrotado”.

Amorim nota que o presidente tem boas antenas políticas e percebe – inclusive como rescaldo do sete de setembro – que sua parcela de significativo apoio popular é irremediavelmente minoritária.

Diante dessa evidência cabal, que aponta para a derrota eleitoral em 2022, Bolsonaro reage com a tentativa de “vergar as instituições”, como fez no sete de setembro.

Mas o presidente, cada vez mais isolado – o “PIB” se afasta crescentemente e surgem trincas mesmo na relação com categorias cativas como os caminhoneiros –,  não tem poder para isso, e falhou mais uma vez nas manifestações da última terça-feira.

Perante as potenciais consequências negativas desse fracasso, Bolsonaro recua, sem nenhum amor próprio. Mas é evidente que o ataque presidencial à democracia será retomado assim que as circunstâncias permitirem novamente.

A minoria bolsonarista, no entanto, é mais aguerrida do que a maioria que rejeita o presidente, e a oposição continua dividida e descoordenada.

É sintomático que tenha surgido um debate acirrado no seio da esquerda sobre a conveniência ou não de se juntar à manifestação contra Bolsonaro convocada pelo MBL, movimento de direita, para 12/9, domingo.

Petistas e tucanos, cujo antagonismo formava a dicotomia central da política brasileira até pelo menos 2014, continuam a se digladiar iradamente sobre de quem é a “culpa” – cada um diz que é do outro – pela emergência do bolsonarismo.

Dessa forma, analisa Amorim Neto, “Bolsonaro não consegue se impor aos Poderes que hostiliza, mas tampouco há consenso [nas forças antibolsonaristas] para neutralizar ou remover o presidente”.

O problema, prossegue o cientista político, é que “a queda de um presidente, mesmo quando ataca abertamente as instituições, não é gravitacional, ela tem que ser manufaturada politicamente”.

Nesse sentido, ele considera que a “bola da vez” para as forças antibolsonaristas tende a deixar de ser, em certa medida, o próprio presidente, e se transferir para as forças que ainda o mantêm relativamente imune a um processo de impeachment.

Amorim Neto destaca, como “bola da vez”, o Centrão e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), assim como Augusto Aras, Procurador-geral da República.

Tanto no caso de Lira como de Aras, a “passada de pano” para os graves atos antidemocráticos do sete de setembro conteve também sutis sinais de que podem não acompanhar Bolsonaro até o fim se o confronto institucional se tornar incontornável.

Amorim Neto considera inclusive que mesmo personagens pouco idealistas, como políticos do Centrão, são sensíveis ao vexame de reputação que seria afundar no barco com um presidente abominado pelas forças da decência no Brasil e no mundo.

Este colunista acrescentaria as próprias Forças Armadas às “bolas da vez” que merecem sofrer pressão moral para retirar qualquer semelhança de apoio à subversão antidemocrática do governo Bolsonaro.

Já o pesquisador da Ebape observa que as Forças Armadas “institucionais” – ele faz essa distinção em relação à atuação individual de militares como cidadãos – ficaram bastante quietas no sete de setembro.

Segundo Amorim Neto, estudioso da presença militar na política brasileira, “eles não têm o menor interesse em se envolver com isso, pois estão cientes dos riscos embutidos”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/9/2021, sexta-feira.