Quem perde com a intervenção na Petrobras?

Medida de Bolsonaro aumenta incerteza e instabilidade num momento em que a retomada brasileira já está rateando.

Fernando Dantas

23 de fevereiro de 2021 | 21h33

Num curioso paradoxo político, há na esquerda quem veja com bons olhos a intervenção de Bolsonaro na Petrobras (sem deixar de criticar todo o resto do governo do atual presidente). O raciocínio é que os acionistas minoritários da estatal são uma pequena minoria perante dezenas de milhões de brasileiros impactados pelos preços altos dos combustíveis.

O argumento é um queijo suíço de furos, mas um exercício válido é ignorar todos e se concentrar apenas em um ponto: a intervenção é positiva para a sociedade brasileira?

Por um lado, como reportado pelo Estadão, o ato presidencial fez com que três estatais, Petrobrás, Banco do Brasil e Eletrobrás, perdessem R$ 113,2 bilhões em dois dias. Como estatais são patrimônio público, tem-se de cara que a intervenção foi prejudicial.

Os defensores de uma Petrobras teleguiada pelo Planalto, contudo, podem argumentar que preços de ações flutuam muito, e, daqui a um mês ou em outro intervalo de tempo, a “perda” pode já ser muito diferente, quem sabe até anulada ou mais que anulada. E os benefícios da estatal com maior controle do governo viriam não só no curto, mas também no médio e longo prazo.

Talvez uma forma mais apropriada de abordar essa questão, para além do debate interminável entre liberalismo e desenvolvimentismo, é analisar qual pode ser o impacto da intervenção na Petrobrás na frágil retomada econômica brasileira. Da qual dependem diretamente o emprego e a renda, e, portanto, o bem-estar da população.

Como nota de início um participante do mercado, “todo mundo sabe que o político Jair Bolsonaro sempre atuou como um sindicalista do funcionalismo público [voltado principalmente a militares e policiais] e votou contra pautas liberais na economia”.

Durante a campanha, houve a “conversão” ao liberalismo de Jair Bolsonaro, ministrada por Paulo Guedes. Mas a dúvida que nunca saiu do ar é se, em caso de dificuldades políticas e de a agenda liberal demorar a funcionar, Bolsonaro voltaria às raízes corporativistas ou manteria a aposta na agenda de Guedes.

“Paulo Guedes sempre foi visto pelo mercado como um símbolo dessa segunda opção”, continua a fonte.

O fato é que a agenda liberal não engrenou, seja por falta de convicção presidencial, seja por causa da Covid-19, seja por uma combinação dos dois fatores.

Reformas importantes tendem a ser realizadas nos dois primeiros anos do mandato presidencial. As circunstâncias impediram que isso ocorresse, e a esperança que resta voltou-se, naturalmente, para 2021, antes do ano eleitoral.

Com a vitória dos candidatos governistas para as presidências da Câmara e do Senado, instilou-se no mercado algum otimismo de que as coisas iriam andar. Inclusive porque Bolsonaro começou a fazer política e montou, com a ajuda do Centrão, algo que vagamente pode ser descrito como uma base parlamentar, ainda que mambembe e não majoritária.

É nesse contexto do início de um ano crucial para o seu mandato que explode a crise na Petrobrás.

“O presidente ganhou a eleição [das Casas do Congresso] e, na sequência, num arroubo, chuta e enfraquece a agenda liberal”, observa a fonte.

Ele nota que, para o mercado, não há nada mais simbólico do desgoverno do PT do que o “traumático” congelamento dos preços de combustíveis que, muito mais que a corrupção, corroeu até os ossos a posição financeira da estatal.

“Se havia aquela dúvida, a intervenção na Petrobras pode ser vista como um divisor de águas, um sinal de que acabou a agenda liberal e agora vai ser populismo para sobreviver até a eleição”, prossegue a fonte.

E é nesse ponto que entra a economia. 2021 começou com a atividade fraquejando, por vários fatores – inflação do final do ano, fim de programas da pandemia, segunda onda e atraso na vacinação.

Já do ponto de vista do equilíbrio macroeconômico, a economia hoje resiste muito menos a “desaforo” do que no início do governo Bolsonaro.

Apesar do elevadíssimo desemprego e da atividade capengando, a inflação subiu e o BC deve em breve começar a subir o juro básico (que está, por outro lado, em nível extremamente baixo).

Em termos fiscais, a situação piorou dramaticamente com os gastos extraordinários da pandemia, e a dívida bruta foi a 90% do PIB, nível estratosférico comparado a países socioeconomicamente semelhantes ao Brasil.

O teto de gastos, que era questionado apenas pela esquerda na campanha eleitoral de 2018, e que Bolsonaro e Guedes abraçaram com força, hoje é discutido de forma muito mais disseminada entre as correntes políticas do Congresso. A pressão por mais gastos já é forte este ano, e tende a aumentar em 2022, quando haverá eleições.

“Os graus de liberdade da política econômica se reduziram muito, é como um cirurgião fazendo operação com o cérebro aberto e o presidente ao lado atrapalhando”, compara a fonte.

O resultado de tudo isso é cristalino: “Vai ter muito mais prêmio de risco Brasil”.

O analista explica que esse não é um processo linear. O ambiente internacional, na verdade, ainda está bem favorável a emergentes: há liquidez, as commodities estão em alta e existe demanda por ativos dessas economias.

O efeito provável da intervenção na Petrobras, que cristalizou a percepção de uma virada antiliberal na política econômica, é aumentar a instabilidade e a incerteza que já dão a tônica da economia brasileira.

Nesse contexto, investidores se inibem, o consumo de bens duráveis se retrai, os consumidores em geral ficam mais cautelosos. E, portanto, a demanda fraqueja, a retomada fica ameaçada, o mercado de trabalho não melhora, o emprego e a renda sofrem.

Adicionalmente, as agruras da população menos favorecida e a queda da popularidade de Bolsonaro interagem como incentivo a mais doses de populismo até a eleição de 2022. O mercado percebe, antecipa nos preços, incluindo juros de mercado mais salgados, e cria-se o círculo vicioso, típico de situações de crise (na bonomia o populismo até funciona por um tempo), entre equívocos de política econômica e insatisfação popular.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/2/2021, terça-feira.