Real no Z4 da segunda divisão das moedas

Real agora se desvaloriza não apenas ante o dólar e as moedas fortes, mas também em relação a moedas de países emergentes como o Brasil. Para Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos, provável causa é combinação de juro básico extremamente baixo e risco fiscal em alta.

Fernando Dantas

02 de março de 2021 | 19h21

Brasileiros estamos acostumados à ideia de que, durante os frequentes e prolongados períodos de instabilidade macroeconômica do País, o real se desvaloriza. Isto é, perde valor ante o dólar e outras moedas fortes.

A nova realidade, entretanto, é de que a moeda brasileira agora também perde valor em relação às de outros emergentes. Somos o patinho feio entre os patinhos feios.

Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos, nota que, em um ano, o real perdeu 21% do seu valor ante a cesta de moedas emergentes relevantes, 15% ante o peso mexicano, 23% ante o rand sul-africano, 6% ante a lira turca e 17% ante o peso colombiano.

Em dois anos, as perdas do real foram de 30% (cesta de emergentes), 26% (México), 29% (África do Sul), 10% (Turquia) e 21% (Colômbia).

Segundo o economista, há duas linhas de explicação para esse comportamento vexaminoso (o adjetivo é do colunista) do real.

A primeira é a baixíssima taxa de juros básica do Brasil. Além da baixa atratividade convencional de um juro baixo para os capitais, aparentemente o real tem servido como plataforma – e os juros reais diminutos também facilitam isso – para posicionamentos de participantes do mercado em moedas de outros emergentes.

Assim, de forma simplificada, o investidor internacional pode ficar comprado em pesos mexicanos e vendido em real – em vez de apostar na valorização da moeda do México ante o dólar, que pode ser mais duvidosa, ele joga na apreciação ante o real.

Sobral nota que o Brasil tem juro básico mais baixo do que países como China, México, Indonésia, Rússia e Índia, que têm rating melhor do que o brasileiro. Ou seja, temos mais risco e menos retorno.

Como as operações especulativas com moedas emergentes tendem a ser de prazo muito curto, a taxa básica, muito influente na ponta bem curta da curva de juros, é muito relevante.

A segunda linha explicativa são as crescentes incertezas sobre a sustentabilidade fiscal do Brasil, que enfraquecem a moeda via aumento do risco País.

O problema é que, após os gastos explosivos com a pandemia no ano passado, o Brasil não só está reabrindo a torneira do auxílio emergencial como o governo nem ao menos apresentou um orçamento e um plano consistente de retorno da dívida pública a uma trajetória sustentável.

Sobral nota que a África do Sul apresentou orçamento e plano nesse sentido recentemente e os mercados gostaram. Ele acrescenta que é difícil saber se o plano sul-africano é factível, mas a simples disposição do governo de se comprometer com alguma coisa já faz a diferença. E Bolsonaro, por enquanto, nada.

O economista crê que a razão para o real estar no Z4 da segunda divisão das moedas é uma combinação entre a primeira e segunda explicação: juros básicos muito baixos num país particularmente enrolado com problemas fiscais e políticos.

Em relação às consequências, ele vê risco de mais inflação, já que as commodities sobem e o efeito em reais não é compensado pela valorização da moeda brasileira – como costumava acontecer. Mais inflação leva a juros mais altos e enfraquecimento adicional da retomada já cambaleante.

Se é possível tentar extrair algum aspecto positivo do deprimente quadro nacional de hoje, Sobral pensa que as chances de se repetir uma crise macroeconômica aguda como a da virada de 2015 e 2016 são pequenas.

Ele nota que, à época, as commodities que o Brasil exporta estavam em baixa e a Petrobrás tinha um problema de endividamento combinado a barril de petróleo barato que era muito grave.

“Numa conferência em 2016 com investidores internacionais, metade achava que a Petrobrás ia ter que reestruturar a dívida”,  lembra o analista.

Hoje, esses fatores estão ausentes. Adicionalmente, o setor público brasileiro tem uma posição credora líquida em dólares, o que faz com que a desvalorização melhore o balanço público.

Segundo Sobral, o previsto ciclo de alta da Selic este ano pode começar a reduzir o fator baixa taxa básica de juros da depreciação do real. Se o governo tivesse juízo, punha a casa fiscal em ordem para segurar mais efetivamente o câmbio, e proteger a frágil retomada.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/3/2021, terça-feira.