Real resiliente

Até agora a moeda brasileira resistiu bem à mudança de expectativas sobre a política monetária dos EUA, na direção de um aperto mais forte do que o antecipado há alguns meses (normalmente, alta dos juros americanos tende a fortalecer o dólar e desvalorizar as outras moedas).

Fernando Dantas

14 de março de 2017 | 17h33

O mercado já precifica o novo comportamento mais “hawkish” (duro com a inflação) do Federal Reserve (Fed, BC americano), e somente uma surpresa forte de postura significativamente mais dura – o que não parece provável – poderia provocar ondas de desvalorização de outras moedas ante a americana, como apontou hoje (13/3, segunda-feira) Fábio Alves, colunista do Broadcast.

Por outro lado, o esperado aperto da política monetária norte-americana é a principal razão, desde o ano passado, pelo qual no mercado doméstico espera uma desvalorização razoável do real.

Há apenas alguns meses, as projeções do mercado internacional para as elevações dos Fed Funds, a taxa básica dos Estados Unidos, apontavam um caminho mais “dovish” do que aquele que já aparecia nas previsões dos membros do FOMC, o comitê de política monetária norte-americano. De lá para cá, foi o mercado que convergiu na direção do FOMC, o que significa que a percepção migrou na direção de um ciclo de aperto mais duro.

O real, entretanto, pareceu reagir pouco às expectativas de um aperto maior nos Estados Unidos. Embora, desde 23 de fevereiro, o câmbio tenha ido de R$ 3,05 para R$ 3,16, quando se toma o período mais longo desde o início do ano, o dólar oscilou num intervalo de pouco mais de R$ 3,2 a pouco menos de R$ 3,1 – o que dificilmente pode ser lido como a trajetória de uma moeda que no momento encontra-se extremamente vulnerável às expectativas sobre o juro norte-americano.

As expectativas no mercado doméstico sobre a trajetória do câmbio nos próximos dois anos, porém, parecem ainda estar atreladas à ideia de que o ciclo de aperto americano vai produzir considerável desvalorização do real. Houve queda no câmbio projetado para o final de 2017 e 2018 desde o final do ano passado, mas ainda assim ainda se prevê uma razoável desvalorização.

No início de outubro, o mercado projetava dólar a R$ 3,4 no fim de 2017 e a R$ 3,55 ao fim de 2018. Hoje, as previsões estão em, respectivamente, R$ 3,3 e R$ 3,4.

Este comportamento do câmbio, por sua vez, está embutido nas projeções do mercado de IPCA. Na sexta-feira, dia 10, a mediana do mercado apontava inflação de 4,19% em 2017 e de 4,5% em 2018.

Uma questão relevante, portanto, é a do que pode vir a acontecer se o real – que já mostrou resiliência diante do recente endurecimento do discurso do Fed e da mudança das expectativas do mercado na direção de um ciclo mais duro de aperto monetário nos Estados Unidos – não sofrer a desvalorização projetada até o fim de 2017 e de 2018.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA e pesquisador associado do Ibre, tentando replicar o modelo do BC com um dólar estacionado na faixa atual até o fim de 2018, encontrou IPCA abaixo de 4% este ano e próximo de 4% no próximo (com a Selic caindo a 9%no final de 2017 e permanecendo neste nível até o fim de 2018).

Borges nota que, em comunicação recente após reunião com economistas do mercado no Rio, o BC enfatizou a simetria das reações de política monetária a choques de oferta favoráveis e desfavoráveis. Para o economista da LCA, isto pode ser interpretado como um sinal de que o BC não está disposto a sancionar uma inflação abaixo da meta por um período prolongado. Assim, no caso de se desenhar um cenário – uma hipótese, por enquanto – em que o real não se desvaloriza em função da alta dos Fed Funds como vem sendo antecipado há alguns meses, o Copom pode ter argumentos mais fortes para acelerar o ritmo de queda da Selic. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/3/17, segunda-feira.

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