Recessão de balanço

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, explica como dívidas de famílias e empresas brasileiras derrubam o PIB.

Fernando Dantas

02 Dezembro 2016 | 20h43

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, diz que o PIB do terceiro trimestre confirma que o Brasil vive uma “recessão de balanço”. Para ele, “não estamos numa crise só de confiança, mas também de fundamentos; e o fundamento não é só o fiscal, mas também a questão do endividamento das empresas e famílias”. A seguir, a entrevista:

Como o sr. viu o PIB do terceiro trimestre, que caiu 0,8% ante o segundo trimestre, na série dessazonalizada?

Não deve mudar substancialmente a maneira como as pessoas estavam olhando a economia. Nossa previsão era de -0,9%, o consenso era por aí. Veio ligeiramente melhor, com uma surpresa no dado de consumo das famílias, que foi um pouco menos negativo do que imaginávamos.

É um sinal positivo?

Não altera o quadro. O consumo continua caindo, já há sete trimestres. A formação bruta de capital fixo (FBCF, os investimentos), que depois de dez trimestres de queda teve uma pequena alta de 0,5% no segundo trimestre deste ano, voltou a ter queda muito expressiva de 3,1% no terceiro trimestre (na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior). É um contexto ainda claro de queda do investimento como proporção do PIB.

O que estes números sinalizam para o desempenho da economia daqui para a frente?

Nossa projeção para o quarto trimestre é de -0,2%. Os números reforçam nossa projeção de queda do PIB em torno de 3,5% este ano. Os que acreditavam numa recuperação mais rápida, particularmente baseada no investimento, agora provavelmente vão rever para baixo suas previsões do PIB do próximo ano, se já não o fizeram. Muita gente estava apenas esperando essa divulgação para baixar.

Qual a sua previsão para 2017?

Nós, no Safra, estamos desde maio com uma projeção de 0,5% para 2017, por causa do nosso diagnóstico ligado à difícil situação financeira das empresas. Hoje, nossa projeção tem “viés de baixa, projeções de modelos indicam que pode ser até pior. Não estamos numa crise só de confiança, mas também de fundamentos. E o fundamento não é só o fiscal, mas também a questão do endividamento das empresas e famílias. Estamos vivendo o que os americanos chamam de “recessão de balanço”, que tem como característica uma saída mais lenta, como mostram os números de hoje. O otimismo sobre uma recuperação mais rápida tinha dois motivos: a melhora da confiança, parte necessária, mas não suficiente, da retomada; e o fato de que o nível de estoques vinha se ajustando à demanda, o que poderia levar à sua recomposição.

A confiança não bastou?

É evidente a importância das reformas, de tudo aquilo que está andando bem e que de fato ajudou na recuperação da confiança. Mas a confiança não poderia gerar por si só uma retomada sem o saneamento dos balanços das empresas e das famílias, que estão em processo de desalavancagem, de tentar reduzir o nível de endividamento por conta da queda nos lucros e na renda. Isto significa poupar mais e gastar e investir menos. Note que não é uma questão de falta de crédito, de reduzir o compulsório. Os bancos estão lotados de liquidez, podem expandir muito o crédito. Mas não é um momento em que as empresas querem crédito. Elas querem capital, querem se capitalizar, reduzir a alavancagem.

E em relação aos estoques?

Da mesma forma, não faz sentido recompor estoques, porque uma das maneiras de desalavancar e proteger o fluxo de caixa é exatamente ter o menor estoque possível. Na recessão de balanço, a redução de estoque deixa de ser um gatilho para o aumento de produção. As empresas não vão voltar ao nível de estoque de tempos normais, porque isto significa comprometer a capacidade financeira. O custo do estoque é o custo da Selic, do CDI. A empresa não vai carregar estoque num momento como este.

Há risco de mais um PIB negativo em 2017?

Sim, claro. Quando a gente prevê que é 0,5%, há risco de ser negativo. Não vejo chances de um PIB horroroso como o de 2015 e 2016, porque temos uma situação muito melhor na condução da política macroeconômica, gestão de estatais, privatização e regulação. Não vai gerar nenhum milagre em 2017, mas é positivo. Nossa projeção de 0,5% para o ano que vem é puxada pelo investimento. A safra também deve ser muito boa em 2017, com efeitos dinamizadores na cadeia do agronegócio, como fabricantes de equipamentos, etc. E há, sobretudo, a queda do juro no ano que vem, que me parece contratada.

Quanto deve cair a Selic? Há algo mais que o governo possa fazer?

Coerente com nossa visão de que a economia está muito fraca, a projeção é de 9,75% de Selic no final do ano que vem (corte de 4,25 pontos porcentuais). O problema atual da economia poderia em tese ser abordado com política fiscal mais expansionista, mas não há condição de se fazer isso. Na verdade, só resta o canal dos juros, que deverá ser usado ativamente porque a inflação está mais baixa. (Fernando Dantas – fernando.dantas@estadao.com)

Esta entrevista foi publicada pelo Broadcast em 30/11/16, quarta-feira.