Coluna

Fabrizio Gueratto: como o investidor pode recuperar suas perdas no IRB Brasil

Recessão global longa e profunda

Estudo do BIS (Banco para Compensações Internacionais) indica que queda do PIB com crise do coronavírus pode chegar ao dobro do impacto inicial, e que retomada será lenta. Uma das principais razões são os "transbordamentos" de efeitos econômicos entre as regiões da economia global.

Fernando Dantas

07 de abril de 2020 | 10h25

Um estudo recém-divulgado pelo Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements – BIS) mostra que a perda total de PIB dos países com a crise do coronavírus pode ser até o dobro da queda inicial provocada pela quarentena.

O trabalho, baseado num modelo econométrico, leva em conta os transbordamentos econômicos de ida e de volta do choque da Covid-19 entre as principais economias do mundo: Estados Unidos, China, zona do euro, outros países ricos e outros países emergentes.

O estudo parte de quatro hipóteses. A primeira é um cenário de queda mais suave (-2,5%) do PIB em função do choque inicial da quarentena, seguido de recuperação (cenário em V). A segunda é uma queda severa (-5%), seguida de retomada.

A terceira e a quarta hipóteses partem do princípio de que a primeira onda de quarentenas no mundo inteiro não será suficiente para debelar a propagação do vírus. Assim, quando ela for levantada, haverá novos surtos, que exigirão uma segunda quarentena (cenário em W), dois trimestres após a primeira.

Os efeitos econômicos da segunda onda, entretanto, são apenas metade daqueles da primeira, pois já terá havido um aprendizado dos países sobre como preservar ao máximo a economia durante uma quarentena.

Os resultados a seguir são apresentados para Estados Unidos, zona do euro, outras economias avançadas e economias emergentes (neste caso, incluindo a China). Todas as quedas são em relação a um cenário contrafactual, no qual os PIBs dos diversos países e regiões continuariam a crescer de acordo com as projeções anteriores ao conhecimento da crise do coronavírus.

Em nenhum dos quatro cenários – choques em V e W, suaves ou severos – qualquer um dos quatro grupos de economias recupera, até o final de 2021, o nível do PIB projetado no cenário contrafactual em que não ocorreriam os efeitos econômicos da pandemia da Covid-19.

Considerando os transbordamentos, o cenário mais severo em “V” leva a uma queda total máxima do PIB entre 8,5% e 11% nas diversas regiões no segundo trimestre de 2020. Também no caso do cenário mais suave em V, a queda máxima é o dobro do impacto direto.

A fase da recuperação nos cenários em V tende a ser gradual na maior parte dos casos. No caso dos outros países ricos, tanto no cenário suave quanto severo, o PIB aproxima-se do seu nível do primeiro trimestre de 2020 (já afetado pela queda) no quarto trimestre deste ano, e continua a crescer em 2021.

Nos países emergentes, também se chega próximo do PIB do primeiro trimestre de 2020 ao fim do ano, mas com estagnação em 2021.  A área do euro só recupera o nível do primeiro tri/2020 em 2021 e os Estados Unidos nem isso.

As simulações para os cenários em W são, obviamente, piores. Três das quatro áreas analisadas (Estados Unidos, zona do euro e outros países emergentes) não retomam o nível do PIB do primeiro trimestre de 2020 até o último trimestre de 2021, tanto no cenário de choque inicial suave (-2,5%) quanto no de choque inicial severo(-5%). As outras economias ricas apenas aproximadamente “empatam”, na mesma comparação.

No cenário em W com choque inicial severo, as outras economias emergentes, entre as quais está incluído o Brasil, chegam a uma queda máxima do PIB (em relação ao cenário contrafactual sem crise do coronavírus) de pouco mais de 12% no quarto trimestre de 2020.

No último trimestre de 2021, esse grupo de países emergentes ainda apresenta uma queda em relação ao cenário contrafactual de 10,5%. É o pior resultado entre os quatro grupos de países para o cenário de choque severo em W, talvez porque a base de comparação contrafactual incluiria o crescimento acelerado de países emergentes como a China e Índia.

Os autores, Emanuel Kohlscheen, Benoît Mojon e Danie Rees, consideram que a mensagem principal do estudo é mostrar os fortes transbordamentos – de ida e de volta – dos efeitos econômicos do coronavírus entre as regiões.

Eles inclusive fazem outros exercícios contrafactuais, em que algumas regiões são atingidas pelo choque primário do vírus e outras não, e confirmam que os transbordamentos são de grande magnitude.

Isso, para eles, mostra a necessidade de coordenação internacional tanto macroeconômica quanto das políticas de confinamento. Os países são dependentes não só da sua própria capacidade de lidar domesticamente com os aspectos propriamente sanitários da crise, mas também são vulneráveis à incompetência sanitária das outras nações, via transbordamentos.

Uma nota positiva, segundo os autores, é que o estudo não leva em conta a magnitude sem precedentes dos pacotes econômicos de apoio às economias que estão sendo lançados, o que pode fazer com que os efeitos finais da crise do coronavírus sejam menores que os estimados – mas eles alertam que há dúvidas sobre os impactos dessas medidas em economias em “lockdown”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/4/2020, segunda-feira.

Tendências: