Recessão técnica à vista?

Os riscos e as consequências de uma eventual "recessão técnica" no primeiro semestre.

Fernando Dantas

21 de agosto de 2014 | 12h26

O IBC-Br do segundo trimestre, com queda de 1,2% ante o primeiro, segundo os números divulgados em 15/8/14e, confirma um quadro de crescimento no segundo trimestre próximo a zero (em relação ao primeiro, na comparação livre de influências sazonais), possivelmente negativo, na visão do economista Bráulio Borges, da LCA. Outros analistas já trabalham com números negativos. Assim, crescem as chances de que haja dois trimestres seguidos de contração do PIB, o que é uma das definições de recessão.

No caso do primeiro trimestre, a visão dos analistas é de que, por questões técnicas, um número negativo no segundo trimestre levaria a uma revisão do último dado de crescimento de janeiro a março, de 0,2%, também para o território negativo.

Se esse cenário acontecer, certamente haverá um impacto em termos políticos, com os meios de comunicação reportando o ocorrido e a palavra temida – recessão – multiplicando-se por manchetes e títulos e programas de rádio e televisão. É possível, mas não garantido, que haja inclusive algum efeito retroalimentador nas expectativas, especialmente de consumidores. De qualquer forma, seria uma má notícia para o governo em um momento em que o cenário eleitoral está de pernas para o ar, com o trágico falecimento de Eduardo Campos.

Borges, que mantém sua projeção de crescimento do PIB em 2014 em 1% – quando muitos analistas já têm números abaixo disso – espera “um segundo semestre um pouco melhor, mas não a ponto de salvar o ano”.

Ele nota que há um fator calendário, sem nenhum conteúdo econômico mais substantivo, mas que pode influenciar positivamente o terceiro trimestre: o número de dias úteis. Sem feriados caindo em dias úteis, e depois do trimestre da Copa do Mundo, o período de julho a setembro terá 10% a mais de dias úteis que o trimestre anterior. “Desde 2000 não se via uma variação dessa magnitude de um trimestre para o outro”, diz Borges.

O economista avalia ainda que a demanda externa pode ser um pouco melhor no segundo semestre, mas a maior parte das empresas vai esperar o resultado das eleições antes de tomar decisões de investimento.

Sergio Vale, economista da MB Associados, acha que o IBC-Br reforça a sua projeção de queda de 0,4% do PIB no segundo trimestre, o que levaria o primeiro também para o território negativo. A previsão da MB para 2014 é de crescimento de 0,6%. Vale nota que, a se confirmarem essas previsões, o Brasil terá apresentado, em quatro trimestres, três retrações: o terceiro de 2013, e o primeiro e o segundo de 2014.

“Seria algo inédito em muito tempo, o retrato de uma economia estagnada”, ele comenta.

Para Vale, esse longo período de letargia associa-se às incertezas eleitorais para provavelmente fazer com que o investimento continue a se retrair, e o mercado de trabalho piore. Para o segundo trimestre, ele prevê uma queda do investimento de 12,6% na comparação interanual, isto é, ante o mesmo período de 2014.

Ainda assim, o economista acha que o segundo semestre “não vai ser tão trágico quanto o

primeiro”. Uma das razões, quando se toma a comparação interanual, é que o segundo trimestre de 2013 foi o segundo melhor do governo Dilma. Comparado a igual período do ano anterior, houve crescimento de 3,5%, só superado pelos 4,2% do primeiro trimestre de 2011, no início do governo da atual presidente.

Assim, a base de comparação não será tão desfavorável no segundo semestre, em que a MB prevê uma expansão de 0,5% ante igual período de 2013.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/8/14, sexta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.