Recorde e muita commodity na balança

Números principais sugerem que 2021 foi um ano de boom para o comércio exterior brasileiro. Mas dependência de matérias-primas na exportação se confirma mais uma vez.

Fernando Dantas

14 de janeiro de 2022 | 19h21

Em termos de comércio exterior, os principais números de 2021 sugerem um ano de boom. Como consta do Boletim do Icomex divulgado hoje, não só o saldo comercial de US$ 61,2 bilhões foi recorde, com alta de US$ 10,8 bilhões em relação a 2020, como também houve elevação de 34,2% das exportações e de 38,2% das importações ante o ano anterior.

A economista Lia Baker Valls Pereira, especialista em setor externo do Ibre-FGV, destaca nesse resultado a importância das commodities exportadas para a China.

Em 2021, em particular, essa é uma história ligada a preços. As commodities responderam por 67,7% das exportações ano passado, com aumento de 37,3%, mas composto de elevação de 38,9% de preços e recuo de 1,8% de volumes. No caso das exportações para a China, especificamente, houve alta de 38,8% nos preços e recuo de 6% nos volumes.

Numa perspectiva histórica, contudo, Lia aponta que o crescimento da venda de commodities para a China ocorre em ambos os aspectos, com os volumes tendo crescido mais de 300% em pouco menos de 15 anos.

Naturalmente, o forte e sustentado crescimento econômico chinês faz com que suas importações dos países em geral mantenham tendência de crescimento. Mas a economista nota que, no caso brasileiro, o ritmo de alta é bem superior ao da maioria dos outros países.

Esse desempenho contrasta com o comércio com outros parceiros importantes, como a União Europeia, destino para o qual as exportações brasileiras têm sofrido tendência de declínio, embora ano passado tenham crescido; e Argentina, em que a instabilidade do país se reflete na evolução das importações de produtos do Brasil.

Seguindo o padrão da especialização em commodities, também pelo recorte setorial se nota, segundo Lia, que as exportações da indústria extrativa e agropecuária crescem desde pelo menos o final da primeira década deste século, enquanto as da indústria de transformação estão mais ou menos estagnadas.

“A participação do Brasil no mercado global de manufaturas, inferior a 1%, não tem mudado”, alerta a economista.

Esse figurino fica bem claro na composição do saldo comercial de 2021: superávit de US$ 46,6 bilhões na agropecuária, de R$ 62,8 bilhões na extrativa, e déficit comercial de US$ 45,3 bilhões na indústria de transformação.

Chama a atenção que esse resultado ocorra numa fase em que a moeda brasileira carrega um dos maiores processos de desvalorização desde o Plano Real. É verdade que a inflação recente pode ter reduzido um pouco o componente real dessa depreciação, mas, mesmo assim, ainda sobra muito ganho de competitividade comercial para tão pouca reação das exportações de manufaturados.

Lia nota que, pontualmente, as exportações de alguns setores, como o de calçados, reagiram ao câmbio desvalorizado, mas de fato o panorama geral não é animador. Ela aponta que a concorrência hoje na exportação global de manufaturados é muito mais forte, com vários países asiáticos, além da China, buscando aumentar suas parcelas de mercado.

As perspectivas da balança comercial brasileira em 2022, para a pesquisadora, são boas, mas com recuo do superávit, e desaceleração tanto das exportações quanto das importações. A potencial instabilidade ligada às incertezas eleitorais, observa Lia, “também afeta as decisões dos operadores do comércio exterior”

Há muitas incertezas na economia global, e ela destaca em particular a alta do protecionismo, especialmente ligado a subsídios. As hostilidades entre Estados Unidos e China e a perda de poder de fogo e certa paralisia da Organização Mundial de Comércio (OMC) estão enfraquecendo a disciplina comercial dos países.

Os EUA já cogitam subsidiar pequenos produtores de carne e o fortalecimento da pauta ambiental, incluindo a China, é uma sombra sobre o agronegócio brasileiro.

“Nesse tipo de guerra, o Brasil naturalmente se dá mal”, diz a economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/1/2022, sexta-feira.