Redução de ociosidade? Onde?

Alguns economistas questionam visão do BC na ata da reunião do Copom de março, que justificou aumento de 0,75 ponto porcentual, para 2,75%, da Selic. Um dos pontos polêmicos é a análise da ociosidade na economia.

Fernando Dantas

24 de março de 2021 | 11h33

Segundo a ata da reunião do Copom da semana passada, divulgada hoje (23/3, terça-feira), “(…) os dados de atividade e do mercado do trabalho formal sugerem que a ociosidade da economia como um todo se reduziu mais rapidamente que o previsto, apesar do aumento da taxa do desemprego”.

Há controvérsias. A menção aos dados do mercado de trabalho formal possivelmente se refere ao Caged, que de fato vem tendo resultados surpreendentemente bons.

Só que, como tem alertado o economista Bruno Ottoni, da IDados, é errado comparar – como vem fazendo o Ministério da Economia – os dados da nova série do Caged, que teve início em janeiro de 2020, com a antiga, encerrada em dezembro de 2019.

Em artigo divulgado hoje no Blog do Ibre, Ottoni explica que dados, fornecidos pelo próprio governo, usando a metodologia da série nova, mas relativos ao período de abril a dezembro de 2019, indicam que se está comparando bananas e maçãs.

Pela série antiga, foram criados 410,8 mil empregos formais em termos líquidos de abril a dezembro de 2019. Pela metodologia nova, 715.169, uma diferença de pouco mais de 300 mil postos de trabalhos formais.

Em outras palavras, usar o Caged a partir de 2020 para aferir a ociosidade na economia não é adequado (caso seja daí mesmo que o BC tirou a conclusão da ata mencionada acima), porque não há como comparar com os anos anteriores.

Mas existem outros questionamentos sobre a avaliação de ociosidade na economia expressa na ata, tanto relativos à questão do Caged como a outras.

Bráulio Borges, economista-sênior da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre-FGV, nota que o Caged mede a demanda por trabalho formal, enquanto a PNAD Contínua mede a demanda e a oferta por trabalho de todos os tipos – o que é bem mais adequado para se avaliar a ociosidade no mercado de trabalho.

O economista Ricardo Barboza, professor da Coppead-UFRJ, acrescenta que, de acordo com uma série da PNADC retropolada por economistas da USP, o atual nível de desemprego dessazonalizado, de 14,7% no 4º trimestre de 2020 (último dado divulgado), é o mais alto desde 1976.

E isso sem falar das pessoas que estão fora do mercado de trabalho – isto é, não tem nem procuram emprego – porque estão em casa para não contrair Covid-19, mas que gostariam de trabalhar. Incluindo esse contingente, esse “desemprego sombra” vai para cerca de 20%.

Barboza lembra que o desemprego estava em 11% em fevereiro de 2020 e as estimativas de “desemprego natural” entre 9% e 9,5% (ou até menos, para alguns economistas, por causa da reforma trabalhista).

Em outras palavras, pelo lado do mercado de trabalho, há enorme ociosidade, nessa visão.

Borges e Barbosa têm criticado a postura recente. que veem como excessivamente conservadora, do BC, e coautoraram um artigo sobre o tema no jornal Valor.

Em relação à taxa de câmbio, por exemplo, eles observam que a projeção do BC no cenário básico, que parte de R$ 5,7 e segue a paridade de poder de compra (PPP), levaria o dólar a R$ 5,95 no final de 2022.

O cenário básico supõe uma trajetória de Selic de mercado (relativa ao momento da reunião) pela qual a taxa básica se eleva para 4,5% em 2021 e 5,5% em 2022.

Com esses parâmetros, o modelo do BC projeta IPCA de 5% este ano e de 3,5% (precisamente a meta) em 2022.

Os dois economistas frisam, porém, que, com o aperto monetário iniciado pelo BC de forma agressiva – elevando a Selic em 0,75 ponto porcentual (pp) na semana passada, para 2,75%, e indicando outra alta igual para a reunião de maio –, é pouco provável que o câmbio chegue ao fim de 2022 em R$ 5,95.

A mediana do câmbio no final de 2022 projetada no último Focus (sistema de coleta de expectativas do mercado do BC) foi de R$ 5,25. Usando esse câmbio de consenso e replicando o modelo do BC, Bráulio chega a um IPCA em torno de 3% em 2022, bem abaixo da meta, portanto.

Borges considera ainda que o BC, na ata, deu muita importância ao que aconteceu até o quarto trimestre de 2021. De fato, a retomada surpreendeu, e a queda de 4,1% do PIB no ano passado foi menor do que projeções que se faziam ainda no início deste ano.

Mas essa é uma visão de retrovisor. A segunda onda da pandemia se revelou imensamente maior do que se antevia no final do ano passado, com efeitos sobre a atividade igualmente muito mais intensos.

O Ibre, por exemplo, projeta queda de 0,5% do PIB tanto no primeiro trimestre quanto no segundo.

É verdade que o nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) na indústria está na média histórica por causa do boom de consumo de bens (paralelamente à redução do consumo de serviços) verificado desde meados do ano passado.

Mas Borges nota que outras medidas que refletem a ociosidade, como tráfego em rodovias e taxa de vacância de escritórios, ainda revelam uma economia com muitos recursos subutilizados.

Nas suas contas, a hiato do produto na economia brasileira era de -5,5% no final de 2019 e de -6% ao fim de 2020.

Outro ponto questionado pelos dois economistas é mais uma decisão unânime do BC, e sem exposição de debates sobre alternativas de ação, quando há um discussão intensa no mercado, com economistas respeitados defendendo visões bem diferentes.

Eles também notam que, mais de um mês após a promulgação da lei de autonomia do BC, em que se acresceu ao mandato de controlar a inflação, ainda que de forma secundária, a suavização do ciclo econômico e o fomento ao pleno emprego, nada sobre esses novos objetivos – que, a seu ver, deveriam aumentar o peso da atividade na função de reação do Copom – apareceu na comunicação institucional da autoridade monetária.

Borges e Barboza consideram que o Copom partiu com mão pesada demais para o novo aperto monetário, cujo início poderia esperar um pouco mais – ou pelo menos ter sido de 0,25 pp.

Borges nota ainda que a curva de juros já deixou para trás o plano de voo do BC de fazer um ajuste “parcial”, precificando para o fim do ano uma Selic já em nível próximo da neutralidade (o que seria um ajuste total), de aproximadamente 7%.

Ele vê dificuldade agora de o BC “domar” as apostas altistas (mais do que Copom pretende) do mercado em relação à Selic.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/3/2021, terça-feira.