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Refresco na América Latina, mas não no Brasil

Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, mostra como anos de política fiscal equivocada fazem com que o Brasil hoje fique de fora dos primeiros sinais de estabilização da crise econômica na América Latina.

Fernando Dantas

13 de novembro de 2015 | 17h22

Diversos países latino-americanos deram sinais no terceiro trimestre de que seus processos de desaceleração econômica podem ter se estabilizado. Infelizmente, não foi o caso do Brasil, e a diferença básica é que aqueles países praticaram uma política fiscal prudente nos anos de vacas gordas, ao contrário do que aconteceu na gestão da economia brasileira.

Esse diagnóstico foi desenvolvido na quinta-feira (12/11/15) por Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, durante apresentação de cenários econômicos para um grupo de jornalistas, no Rio de Janeiro.

Goldfajn explicou que boa parte da América Latina, como o Brasil, sofreu um choque de oferta nos últimos anos, com um padrão de piora econômica que simultaneamente freia a atividade e acelera a inflação. A causa geral foi o fim do boom de commodities puxado pelo crescimento chinês. O país exportador de matérias-primas fica mais pobre e o PIB cai. Mas a queda da demanda, que normalmente faria a inflação cair junto, é sobrepujada pelos efeitos da desvalorização cambial, já que as commodities são as grandes geradoras de receita em moeda forte dessas economias. Assim, a inflação acaba se acelerando.

Há um enorme contraste entre o desempenho econômico médio de vários países latino-americanos no período áureo do boom, de 2004 a 2008, e no triênio 2014-2016 (incluindo projeções do Itaú para 2015 e 2016): respectivamente, 7,5% e -0,9%, na Argentina; 4,8% e -1,9%, no Brasil; 5,5% e 2,1%, no Chile, 5,4% e 3,5%, na Colômbia; 3,4% e 2,4%, no México; 7,3% e 2,9%, no Peru; 4,6% e 3,2%, no Paraguai; e 5,9% e 2,5%, no Uruguai.

Um primeiro aspecto que chama a atenção é que, com exceção de Brasil e Argentina, todos os países acima, mesmo piorando no segundo período, não têm recuo do PIB.

Na maioria deles, o Itaú-Unibanco projeta um desempenho em 2016 melhor do que em 2015: é o caso de Chile, México, Peru e Paraguai. Na Colômbia, a projeção é de leve recuo, mas a partir de um bom patamar (3% em 2015, 2,8% em 2016). No Uruguai, o crescimento fica em 2% nos dois anos.

No Brasil, 2016 (-2,5%) é “menos pior” que 2015 (-3,2%), mas em níveis tão ruins que a redução da queda não pode ser considerada uma luz no fim do túnel. Na Argentina, finalmente, há piora: 0,5% em 2015 e -0,5% em 2016.

A política fiscal é a diferença crucial entre o Brasil e países latino-americanos em melhor posição de enfrentar a atual crise. Em termos nominais, o Brasil teve déficit de 6,2% do PIB em 2014, e projeção de déficits de 9,5% e 8,5% em 2016 e 2017. No Chile e na Colômbia, que contabilizam o resultado nominal em termos cíclicos, em nenhum dos três anos o déficit ultrapassa 2% do PIB, no caso chileno; e 2,5%, no colombiano. No Peru e no Chile, em nenhum dos três anos o déficit nominal ultrapassa, respectivamente, 3% e 3,5% do PIB.

Como no caso brasileiro, Chile e Peru, países fortemente dependentes de commodities, estão sofrendo um impacto negativo na política fiscal no triênio 2014-2016. No Chile, o déficit subiu de 0,6% do PIB para 1,6% de 2014 para 2015 (projeção); no Peru, de 0,3% para 2,8%.

A diferença é que a política fiscal mais bem gerida está permitindo a alguns desses países até praticar algum grau, moderado, de política anticíclica (obras públicas na Colômbia) ou pelo menos criou uma situação de contas públicas mais confortável para enfrentar os anos de vacas magras.

No Brasil, ao contrário, na transição entre o auge do boom e o momento atual, erodiu-se o resultado primário, levando-o de um superávit de 3% a 4% do PIB para um déficit em torno de 1%.

“Enquanto no Chile a discussão é sobre quando vão voltar a um resultado nominal ajustado pelo ciclo de zero, no Brasil a discussão é que acabou o dinheiro”, resume Goldfajn.

Dessa forma, o Brasil não tem condição de surfar na estabilização da queda dos demais países, que se nota inclusive no fato de que as projeções para os indicadores à frente entraram em rota de melhora, depois de longo período de sistemática piora (no Brasil continuam a piorar).

O problema brasileiro é que o desajuste fiscal criou uma dinâmica perigosa na dívida pública, que só pode ser resolvida com um salto de 3,5 pontos porcentuais do PIB no resultado fiscal primário – de -1% para 2,5%, nível que estabiliza a trajetória da dívida (num primeiro momento; na sequência, é preciso encontrar mais 0,5 ponto porcentual do PIB por ano, para dar conta do aumento estrutural contratado de gastos; este esforço adicional pode vir de reformas estruturais ou aumento da carga tributária).

Como há um impasse político e quase nenhum sinal de solução do nó fiscal, investidores e demais agentes econômicos paralisam decisões de investimento e consumo no Brasil, com medo de que a conta recaia sobre si.

Voltando à natureza de choque de oferta da atual crise, Goldfajn nota que Chile, Colômbia, México e Peru tentaram também, desde 2013, afrouxar a política monetária, mas tiveram que voltar a apertá-la – por causa da inflação. Já o Brasil só apertou desde 2013, a partir de níveis muitos mais altos de juros que os demais países.

O economista-chefe do Itaú-Unibanco diz que uma esperança para o Brasil é que alguns avanços na luta pelo ajuste fiscal mudem o humor dos agentes econômicos e permitam que se estabilize a queda da economia, para preparar uma retomada. Os avanços da DRU e do repatriamento de divisas são passos na direção certa, mas que Goldfajn considera insuficientes para reverter o humor. A eventual aprovação da CPMF ou de outra medida com igual poder arrecadatório poderia ser um passo mais decisivo. (Fernando Dantas – fernando.dantas@estadao.com)

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