Regras valem menos, poder vale mais

Relatório recém-divulgado do Deutsche Bank que previu recessão nos Estados Unidos em 2023 traz seção sobre “geoeconomia” global, com o pano de fundo da guerra na Ucrânia, e que projeta retração da globalização e do multilateralismo.

Fernando Dantas

06 de abril de 2022 | 19h32

Em relatório publicado ontem e que teve bastante repercussão, o Deutsche Bank previu que os Estados Unidos devem entrar em recessão no final de 2023, em função de um aperto monetário agressivo do Federal Reserve (Fed, BC norte-americano) que deve levar os Fed Funds, a taxa básica, a um pico de 3,6% no ano que vem.

Porém, para além dessa projeção conjuntural que mexeu com os nervos dos analistas, o relatório de DB, que analisa a economia global, traz uma seção instigante sobre as “mudanças de paradigma na geoeconomia global”, com o pano de fundo da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Os autores notam que, antes mesmo do atual conflito, o mundo já entrara numa era de “política de poder”, na qual  as regras importam menos e o poder importa mais. Estados Unidos e Europa já buscavam menor exposição econômico-financeira à China, e agora a Alemanha despertou para o risco de depender da Rússia. A previsão é de que políticas energéticas, industriais e de investimento passem a ser muito mais conectadas com políticas de segurança.

O relatório do DB também prevê “crescente tensão entre um bloco ocidental liderado pelos Estados Unidos e um bloco ideológico oponente liderado pela China que inclui a Rússia e outros países menores”. Haverá também um bloco não alinhado, o que fica claro no fato de que 141 países condenaram a invasão russa na ONU, mas apenas os países ocidentais e seus aliados asiáticos aderiram às sanções contra a Rússia.

Outra tendência reforçada pela guerra é a contração das cadeias produtivas globais como contraposição aos riscos de gargalos, que vêm se repetindo com situações e episódios como a guerra comercial EUA-China, o bloqueio do Canal de Suez e a pandemia.

Produção no próprio território nacional ou próximo dele (“on-shore” e “near-shore), aumento de estoques e diversificação de fornecedores estarão na ordem do dia. Essas tendências, porém, segundo o relatório do DB, podem levar à mais inflação e menos eficiência. Outro desdobramento previsto é de que China, Rússia e outros países tentarão desenvolver alternativas ao dólar no comércio e finanças internacionais, por conta da potência inusitada do atual pacote de sanções contra a Rússia.

A chamada “autonomia estratégica aberta” da União Europeia (UE), que busca combinar abertura comercial e de investimentos com objetivos ambientais e sociais deve ganhar novo impulso em termos de mecanismos (incluindo políticas industriais) para evitar coerção de outras economias baseada na dependência comercial europeia.

Como possível consequência do congelamento de reservas internacionais russas, muitos países, incluindo evidentemente a China, podem pensar duas vezes antes deixar enormes volumes de reservas aplicadas em dólares (principalmente) e euros. As dificuldades de estabelecer uma nova moeda internacional, como o renminbi chinês, porém, pode levar à menor acumulação de reservas, com redução do excesso de poupança no mundo, o que elevaria as taxas de juros reais neutras no longo prazo.

Os autores também preveem mudanças no crescente movimento ESG (as empresas levarem em conta, na sua atuação, fatores ambientais, sociais e de governança). Projeta-se maior escrutínio para investimentos em regiões de risco geopolítico, que pode se materializar em critérios “sociais”. Haverá pressões para que a indústria de defesa possa ser considerada apta a constar de carteiras de investimento ESG, e também pela reabilitação da energia nuclear.

No encerramento dessa seção do relatório, o DB ressalva que as tendências descritas não são “ainda” o fim do multilateralismo. Mas fica a sensação de que a globalização tal como a conhecíamos está de fato em xeque.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/4/2022, quarta-feira.