Religião, política e economia

Levantamento sistemático indica que a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), que abrange quase 40% da Câmara, é mais liberal em economia do que deputados que não pertencem ao grupo. Mas é ideologia ou governismo?

Fernando Dantas

22 de junho de 2022 | 13h34

A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) é composta por 202 deputados federais e oito senadores. Na Câmara, portanto, a FPE reúne quase 40% dos parlamentares.

Análise sistemática que vem sendo realizada desde março a partir das contas do Twitter dos deputados mostra, como era de se esperar, que a FPE é basicamente governista nos temas legislativos em geral, com focos em bandeiras específicas, como o combate ao aborto e a defesa do “homeschooling”.

No entanto, como explica o economista Vinicius Botelho, pesquisador do Centro de Estudos da Religião e Políticas Públicas (CERP/USP) e que trabalha no “Monitor das Lideranças Religiosas, Políticas e da Mídia” (publicação que monitora a FPE), a relação entre posições políticas e religião evangélica no Congresso Nacional é um pouco mais complexa do que possa parecer à primeira vista.

Para começar, nem todos os participantes da FPE são evangélicos e nem todos os evangélicos do Congresso estão na FPE. Há até parlamentares do PT na FPE.

Ainda assim,  é possível dizer que a grande maioria dos integrantes da frente parlamentar é de evangélicos, que a FPE é importante representação política da população evangélica, e que hoje a frente tem forte tendência governista.

O acompanhamento semanal do Monitor baseia-se nas publicações no Twitter dos parlamentares e na classificação do sentimento em relação a determinados temas como “positivo” ou “negativo”.

No momento, como previsível, os temas que “mais geram sentimento” são Lula, Bolsonaro e inflação.

O acompanhamento também envolve senadores, mas os resultados derivam quase totalmente dos deputados, que se manifestam mais na rede social.

O monitoramento é feito tanto dos parlamentares da FPE como dos que não pertencem ao grupo, justamente para identificar diferenças e semelhanças.

Para além dos óbvios temas ligados à religião, Botelho observa que os parlamentares da FPE em média tendem a ser mais liberais em economia dos que os ‘não FPE’, embora seja muito difícil separar o quanto dessa tendência é ideologia e o quanto é governismo.

Em relação ao preço dos combustíveis, um dos temas mais quentes do momento, tanto os parlamentares da FPE quanto os não FPE demonstraram sentimento positivo em relação ao PLP 18, que criou um teto de 17% para o ICMS de combustíveis, energia elétrica, serviços de telecomunicações e transporte público.

Mas enquanto os membros da FPE, antes da “solução” do PLP, eram muito mais suaves nas críticas aos preços dos combustíveis (mas comemoraram com muito entusiasmo a aprovação do PLP), os não FPE foram em média muito mais estridentes nas críticas à Petrobrás e na cobrança de medidas de barateamento.

Mas isso é a fotografia até 15/6, quarta-feira passada, últimos dados oficialmente divulgados pelo CERP.

Embora os resultados mais recentes ainda não tenham sido publicados em novo monitor, Botelho indica que o clima azedou em relação ao tema do preço dos combustíveis tanto fora da FPE quanto dentro – o que é uma má notícia para o governo, principalmente pela FPE, importante na sustentação política de Bolsonaro.

Sobre a liberação de parcelas do FGTS pelo governo como tentativa de reanimar a economia e conquistar votos em ano eleitoral, o sentimento da FPE foi bastante positivo. Já fora da FPE, onde a presença da oposição é muito determinante, não houve críticas diretas mas manifestações indiretas de sentimento negativo – como, por exemplo, observações de que há tanta fome que as pessoas “sacam o FGTS” para comer.

Existem alguns sinais de que pode efetivamente haver um elemento de liberalismo ideológico nos posicionamentos médios da FPE, apesar da já mencionada dificuldade de separar essa possibilidade de manifestações de governismo puro e simples.

Uma possível indicação de pendor liberal em economia foram as críticas muito mais fortes entre os parlamentares fora da FPE do que entre os integrantes da frente parlamentar em relação a recente rumor sobre medida para redução da alíquota do FGTS.

Outro exemplo vem do tema da educação pública: o sentimento negativo sobre a PEC 206/19, de cobrança nas universidades públicas, foi muito mais forte entres os parlamentares de fora da FPE do que entre os integrantes da frente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/6/2022, terça-feira.