Retomada do emprego e inflação na economia global

Estudo de economistas do BIS aponta que recuperação do mercado de trabalho pós-pandemia não é explosiva, mas ainda assim pode causar pressões inflacionárias.

Fernando Dantas

04 de novembro de 2021 | 09h55

A pandemia da Covid-19 provocou uma queda sem precedentes no número de horas trabalhadas na economia global. No auge das quarentenas em meados de 2020, o recuo foi de 10% a 20% nos países ricos, e ainda maior em alguns emergentes.

A natureza da redução das horas trabalhadas variou, de acordo com a resposta de política pública à pandemia. Nos Estados Unidos, o desemprego subiu bem mais. Na Europa e Japão, programas de manutenção de emprego com redução de jornada tiveram efeito igualmente redutor das horas trabalhadas, mas preservando o vínculo de trabalho.

Em grandes países emergentes, como Brasil, México e África do Sul, foi particularmente forte a saída de pessoas do mercado de trabalho, com redução da população economicamente ativa (PEA) de 4 a 12 pontos porcentuais.

Ao contrário do padrão típico de recessões em emergentes, o mercado informal foi o mais atingido na pandemia, não exercendo seu papel tradicional de reserva de emprego de última instância em momentos ruins da economia. A razão para essa mudança é que o setor informal tipicamente emprega muito e aglomera pessoas.

Recente trabalho de economistas do BIS (Frederic Boissay, Emanuel Kohlscheen, Richhild Moessner and Daniel Rees), do qual constam essas informações, busca avaliar se o terremoto no mercado de trabalho global provocado pela pandemia vai deixar cicatrizes mais profundas, e quais os efeitos à frente em termos de salários e pressões inflacionárias.

O título do trabalho é “Mercados de trabalho e inflação na esteira da pandemia”.

Uma primeira constatação dos pesquisadores é que o número de horas trabalhadas voltou com força depois do período mais estrito de quarentenas, mas se mantém abaixo do nível pré-pandemia nos Estados Unidos e na média dos países avançados e emergentes. Na maioria dos países, a retomada do PIB está mais adiantada que a do mercado de trabalho.

Essa volta das horas trabalhadas teve contornos diferentes entre países, refletindo os diferentes padrões da contração anterior, mencionados acima.

Assim, nos Estados Unidos o processo se deu na maior parte pela queda do desemprego. Na Europa, pelo aumento das horas trabalhadas da população empregada. E nos emergentes o papel da volta de pessoas à força de trabalho foi muito expressivo.

No front da renda do trabalho, o ritmo de aumento dos salários desacelerou, na retomada, em relação ao que prevalecia antes da pandemia. Esse foi um efeito geral, com exceção dos Estados Unidos. Mas quando se descontam efeitos composicionais no mercado de trabalho americano, também ele mostra aquela tendência.

Em termos setoriais, os salários estão crescendo mais rapidamente na área de tecnologia da comunicação (aumentou mais de 2% em relação ao pré-pandemia), que viu seu papel na economia se ampliar durante a pandemia. Dos segmentos que fecharam e reabriram, o mercado de trabalho está particularmente aquecido em recreação (mais de 1%).

Os autores do estudo notam que não só a demanda, mas também a oferta de trabalho pode ter sido afetada pela pandemia. Em setores de baixo contato humano para os empregados, a retomada envolve ritmos similares para demanda e oferta.

Já setores nos quais trabalhar implica aglomeração, percebidos como mais arriscados, registram a combinação de salários em alta e empregos em queda, talvez por uma aversão ao risco que parta dos trabalhadores.

Uma diferença nítida entre a recuperação do mercado de trabalho pós-pandemia e após a grande crise global é que, agora, há muitas vagas ainda não preenchidas nos setores mais atingidos e que já estão se recuperando.

A explicação está na natureza dos choques. Após a crise de 2008-2009, com perdas maciças de empregos no setor imobiliário, fecharam-se também as vagas nesse ramo da economia por anos, até o excesso de capacidade (residências e prédios comerciais vazios) ser absorvido.

Na atual crise, provocada por um agente externo à economia, o coronavírus, os setores tendem a voltar para o ponto onde estavam antes da pandemia, com muito menos fechamento de vagas.

Por outro lado, os autores notam que um volume grande de vagas não preenchidas é um sinal ambíguo. Por um lado, mostra vigor na demanda por trabalho. Por outro, pode indicar problemas de “matching” nos países que não preservaram o vínculo empregatício durante a pandemia, com disputa por trabalhadores entre empresas que cortaram muitos postos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais vagas não preenchidas agora do que antes da pandemia, para o mesmo nível de desemprego. Isso indica problemas de matching pós-crise que não ocorreram em países que protegeram mais o vínculo empregatício na pandemia.

Na parte de medir a pressão salarial e inflacionária na saída da pandemia, os economistas apontam para a dificuldade de usar medidas anteriores de ociosidade. A generosidade do seguro-desemprego na pandemia pode ter mudado o mínimo que um trabalhador aceita para trabalhar, forçando as empresas a elevar salários. Por outro lado, o uso maciço de esquemas de preservação de emprego com redução de horas trabalhadas pode estar mascarando a real (e maior) taxa de desemprego.

Os pesquisadores não veem uma forte elevação da massa salarial ocorrendo no curto prazo (mas há exceções relativas a alguns países e setores). O “mismatch” entre oferta e demanda de trabalho pode ampliar artificialmente as medidas de ociosidade.

Mas há mudanças mais estruturais ligadas à pandemia que podem ter efeito nos salários, como restrições à migração. Os problemas logísticos da pandemia podem ter mostrado para as empresas fragilidades da excessiva fragmentação geográfica da produção, levando a um movimento de renacionalização de etapas produtivas. Isso, por sua vez, pode aumentar o poder de barganha dos sindicatos nas negociações salariais.

Os efeitos de uma eventual aceleração salarial  nos países são difíceis de prever, como explica o estudo. Por um lado, esse é um fator cujo peso na inflação dos países tem declinado, por causa do aumento da integração e competição globais. Por outro lado, se a pandemia levar a uma retração da globalização produtiva, aquele efeito (salários para inflação) pode voltar a ganhar força.

Mas os autores observam que há sinais de que as expectativas inflacionárias de médio prazo podem estar sendo influenciadas por fatores do mercado de trabalho, como a alta das vagas não preenchidas de emprego, correlação que pareceu especialmente significativa no segundo trimestre deste ano (e que apontam fricções no mercado de trabalho que podem levar à alta salarial).

As expectativas menos ancoradas, por sua vez, poderiam reforçar os efeitos secundários da atual alta de inflação na maior parte do mundo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)  

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/11/2021, quarta-feira.