Retrato melhor do mercado de trabalho

Exercício da consultoria MCM busca combinar PNADC e Caged, as duas pesquisas do mercado de trabalho, para jogar luz na situação do emprego. Indicação, com ressalvas importantes da própria consultoria, é de que mercado de trabalho pode estar melhor que o retratado pela PNADC oficial.

Fernando Dantas

18 de maio de 2021 | 19h47

As projeções de crescimento em 2021 vêm sendo revistas para cima, mas a situação do mercado de trabalho permanece enevoada, com a divergência entre os dados da PNADC e do Caged.

O Caged, que se refere apenas ao emprego formal, mostra uma situação bem melhor que a retratada pela PNADC.

As duas pesquisas passaram por mudanças recentemente, o que torna mais difícil ainda discernir qual a verdadeira situação do mercado de trabalho.

A mudança do Caged foi planejada, e corresponde a um processo de simplificação e aperfeiçoamento das informações enviadas pelas empresas.

A PNADC é uma pesquisa totalmente diferente, com entrevistas de pessoas e base amostral. A grande mudança foi que, com a pandemia, as entrevistas passaram a ser telefônicas, em vez de presenciais.

O problema dos dados do “novo Caged” é que não são comparáveis com os antigos. Entre abril e dezembro de 2019, quando a versão nova e antiga correram juntas, a primeira apontou criação líquida de 715 mil empregos formais, contra apenas 411 mil da segunda.

Já a PNADC foi afetada pelo aumento de não respostas quando a pesquisa se tornou telefônica, o que pode ter desbalanceado a amostra.

Recente estudo da consultoria MCM formula “uma métrica alternativa simples” para conciliar as duas pesquisas em relação à evolução do emprego formal.

Entre março de 2020 e fevereiro de 2021, a PNADC aponta uma perda de 4 milhões de empregos formais, enquanto o Caged mostra quase um zero a zero.

O estudo da MCM indica que, pela chamada “lei de Okun”, que relaciona mudanças na taxa de desemprego e o crescimento do PIB, o desemprego médio na PNDAC de 2020, de 13,3%, está próximo do estimado pelo modelo (baseado na lei de Okun), de 13,6%. Em outras palavras, a leitura da PNADC ganha pontos.

Mas o próprio trabalho da MCM cita estudo dos economistas Carlos Corseuil e Felipe Russo, do IPEA, segundo o qual as não-repostas na PNADC telefônica podem ter gerado distorções na taxa de formalização do mercado de trabalho que afetariam os números do emprego total.

Esses problemas da amostra podem ter subtraído 2,6 milhões de empregos formais no segundo e terceiro trimestres de 2020.

Diante disso, a MCM realizou um exercício que consiste em fazer com que, a partir de março de 2020, o estoque de emprego formal da PNAD varie de acordo com a geração de vagas do novo Caged.

Com todos os ajustes metodológicos e várias ressalvas importantes sobre os limites do exercício, a MCM chegou a resultados – que não afirma serem “os reais”, mas sim mais um parâmetro para tentar decifrar o estado atual do mercado de trabalho – que pintam uma situação de emprego razoavelmente melhor que a dos dados oficiais da PNADC.

A taxa de desemprego de fevereiro deste ano cai de 14,4% para 13,8%. Em termos sazonais, de 14,3% para 13,7%, com tendência de declínio na margem. Na média de 2020, a taxa de desemprego cai para 13%, um pouco mais afastada da sugerida pela lei de Okun, mas ainda assim aderente, segundo a MCM.

Evidentemente, o exercício da MCM não significa o fim das dúvidas sobre a real situação do mercado de trabalho. Mas ao chegar a uma foto e um filme um pouco melhores que a PNADC oficial, parece também mais compatível com o otimismo que hoje embala as revisões do PIB de 2021.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/5/2021, terça-feira.