Revisão melhorou investimento

Fernando Nogueira da Costa, da Unicamp, não vê formação bruta de capital fixo tão mal no Brasil, mas acha que enfrentamento de cartel das empreiteiras na Lava-Jato impactou ciclo de investimentos.

Fernando Dantas

19 de março de 2015 | 17h35

O economista Fernando Nogueira da Costa, da Unicamp, chama a atenção para o fato de que a recente revisão da série do PIB até 2011 (com adaptações aos novos critérios da ONU, inclusão de pesquisas estruturais e outras mudanças metodológicas) deu uma nova face, e melhor, ao investimento brasileiro ao longo dos últimos anos.

A taxa de investimentos, ou a poupança bruta (interna e externa) saltou de 17,5% do PIB em 2010 para 19,2% pelos novos números. Já a taxa de investimento em 2011 passou de 19,3% para 20,6% do PIB.

Em seu blog, o economista escreve que a atualização metodológica das informações relativas à Formação Bruta de Capital Fixo – tanto a inclusão de pesquisa & desenvolvimento (P&D) como outras mudanças – “passou a incorporar evidências de investimentos recentes na economia brasileira que antes não eram apuradas precisamente pelo Sistema de Contas Nacionais”.

Costa cita, como exemplos, investimentos em setores como agronegócio, indústria bélica, petróleo e gás, mineração, tecnologia de informação e comunicações e outros. Não apareciam diretamente, segundo Costa, investimentos em armazéns e prédios industriais, prédios comerciais, hotéis, restaurantes, escolas, hospitais; estradas, ruas, ferrovias, pontes, túneis, represas, dutos, estádios; limpeza de terreno, nivelamentos e perfuração de poços.

“Veículos motorizados, navios, locomotivas, aviões; hardware e equipamentos de telecomunicações; motores, bombas, tratores, tornos, reatores nucleares, todo esse investimento ficava de fora, assim como navios de guerra, submarinos, caças, tanques e lança-mísseis”, escreveu o economista.

Ele nota que o salto nos investimentos pela melhor apuração faz com que o Brasil aproxime-se – ainda um pouco abaixo, mas na vizinhança o – de outros países latino-americanos como Colômbia e Chile. Costa estimou também que, em 2011, pelos novos números, a poupança das famílias brasileiras em relação à renda disponível bruta era de cerca de 10% do PIB, um número que se situa num nível relativamente alto quando comparado às economias mais adiantadas da América do Norte, Europa e Ásia.

Tomando-se o G-15 (as 15 maiores economias), o consumo das famílias brasileiras, de aproximadamente 63% do PIB, está no grupo de maior nível, no qual o indicador varia entre 60% e 69% do PIB. Este conjunto inclui Itália, Japão, Inglaterra e Estados Unidos. Para Costa, uma questão interessante é até que ponto os hábitos de consumo brasileiros seriam resultado da colonização cultural anglo-americana.

O economista observa ainda que o Brasil guarda outras semelhanças com Estados Unidos, Reino Unido e Japão, como correntes de comércio relativamente baixas (entre 27% e 35% do PIB), e taxas de investimento comparativamente menores.

Outro aspecto notável sobre o qual Costa chama a atenção (mas, neste caso, seus dados são defasados, de 2006) é que a diferença da taxa de investimento brasileira e a de vários outros países, incluindo a China, se dá por conta principalmente da construção civil. Enquanto a absorção de máquinas e equipamentos no Brasil era de 8,5% do PIB, e os investimentos em construção de 6,6%, na China as mesmas variáveis eram de 9,9% e 26%. Ele acrescentou que os investimentos imobiliários cresceram bastante no Brasil desde 2006.

Costa considera que o escândalo da Lava-Jato e o enfrentamento do cartel das empreiteiras teve um impacto crucial no ciclo de investimentos no Brasil, tornando-se um empecilho que pode levar muito tempo para ser equacionado e resolvido. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 16/3/15, segunda-feira.

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