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Ricos gastam mais na crise

Relatório do BIS mostra como e por que os países avançados estão fazendo pacotes econômicos de reação à pandemia muito maiores que os das nações emergentes.

Fernando Dantas

19 de junho de 2020 | 11h18

A reação orçamentária à pandemia da Covid-19 atingiu 4,6% do PIB em média nos países do G-20 (Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, Coreia do Sul, México, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia, Reino Unidos e Estados Unidos).

No entanto, as economia avançadas lançaram pacotes orçamentários em média muito maiores do que as emergentes.

Quando se toma os países ricos do G-20, a média dos pacotes orçamentários de medidas para combater e se contrapor à Covid-19 sobe para 8,3% do PIB, comparado a apenas 2% para as economias emergentes do grupo.

Esses números têm como fonte o FMI, referem-se a medidas anunciadas até 13 de maio e constam de um relatório publicado ontem pelo Banco para Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês, considerado o “banco central dos bancos centrais”) sobre a resposta fiscal à pandemia.

O trabalho, assinado por Enrique Alberola, Yavuz Arslan, Gong Cheng e Richhild Moessner, classifica a reação fiscal à pandemia em sentido amplo em três tipos. O primeiro é o orçamentário, que inclui despesas com saúde pública, transferências para empresas e famílias, subsídios salariais e ao emprego e cortes ou postergação de impostos.

O segundo e terceiro tipos são não-orçamentários: “funding”, que inclui empréstimos do governo, bancos estatais e agências públicas a empresas, tipicamente pequenas e médias, e outros tipos de apoio, como injeção de capital em empresas aéreas, por exemplo; e garantias de crédito do governo em geral, incluindo suporte fiscal a programas dos BCs para manter o crédito fluindo na economia.

Em termos de funding, a média dos pacotes do G-20 foi de 1,7% do PIB, e, em relação às garantias, a média foi de 3,4%.

Novamente, há diferenças substanciais entre os grupos de ricos e de emergentes. Os primeiros tiveram média de 4% e 6,6% do PIB, respectivamente, para funding e garantias. Já os emergentes tiveram, respectivamente, 2% e 0,4% do PIB.

Em comparação com a grande crise global de 2008 e 2009, o pacote orçamentário médio do G-20 foi maior na pandemia, mas o não-orçamentário foi menor, tanto em termos de funding como de garantias. Isso se explica pela natureza financeira da crise de 2008-2009.

E há, como sempre, diferenças grandes entre avançados e emergentes quando se compara à grande crise global.

O pacote orçamentário dos ricos agora é várias vezes maior do que o de 2009, enquanto o dos emergentes é ligeiramente menor. E o pacote não-orçamentário dos países avançados foi bem maior na grande crise global, enquanto o dos emergentes foi um pouco menor.

O relatório do BIS explora duas causas possíveis (e não excludentes) para o fato de a reação fiscal dos países avançados à crise do coronavírus ser muito maior que a dos emergentes.

A primeira é que, como exceção da fase inicial na Ásia, a pandemia atingiu até o momento da análise (que vai até meados de maio) de forma bem mais intensa o mundo das economias avançadas, basicamente Europa e América do Norte, que o dos emergentes.

Porém, com alguns exercícios, os pesquisadores mostram que esse fator poderia explicar apenas uma parte da diferença, sendo que uma parcela substancial se deve ao fato de que o espaço fiscal dos ricos é em média bem maior do que o dos emergentes.

Simplificadamente, a interrogação sobre a solvência fiscal dos emergentes, diante da necessidade de ampliar os gastos para fazer frente à pandemia, afeta os prêmios de risco e atua como um limitador do tamanho dos pacotes. O mesmo fenômeno não ocorre na maioria dos países avançados.

O trabalho também aponta algumas correlações interessantes, que se comportam de forma inversa entre os ricos e os emergentes.

Quanto maior o PIB per capita e a rede social, mais os emergentes tenderam a gastar na crise, e menos os avançados tenderam a gastar.

A explicação pode ser que, entre os emergentes, PIB per capita e rede de seguridade social maiores aumentam a capacidade de os governos darem apoio à economia. Já entre os ricos, ainda que esse fator também esteja presente, PIB per capita e rede de seguridade social maiores significa capacidade ampliada de lidar com choques com os instrumentos já disponíveis, diminuindo a necessidade de pacotes adicionais.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/6/2020, quinta-feira.