Rio melhorou com Olimpíada

Novo livro editado por Marcelo Neri, do FGV Social, mostra que, no período preparatório para a Olimpíada, até sua realização em 2016, município do Rio teve avanços comparativos em diversas áreas econômicas e sociais.

Fernando Dantas

22 de julho de 2021 | 12h20

Com as Olimpíadas de Tóquio começando, após atraso de um ano por causa da pandemia, está sendo lançado (em inglês) um livro que tenta avaliar o impacto das Olimpíadas do Rio na “cidade maravilhosa”.

Marcelo Neri, diretor do FGV Social, que editou o livro e é coautor de dez dos 16 capítulos, explica que o lançamento de “Evaluating the Local Impacts of the Rio Olympics” é global, com a versão virtual disponível no site da Routledge, editora multinacional de origem britânica, da Amazon e em outras plataformas. Há também uma versão de capa dura do livro.

O livro é muito detalhado e com diferentes seções que analisam temas como transportes e mobilidade urbana, habitação, impacto fiscal, efeitos em termos de renda e emprego etc.

Um detalhe importante é que o período analisado pelo livro é basicamente de 2008 a 2016, isto é, da oficialização da candidatura do Rio à sede das Olimpíadas (cuja vitória foi anunciada em 2019) até o evento em si.

Assim, como explica Neri, o que se mede são os efeitos diretos e indiretos da preparação da cidade para o evento. O legado olímpico definitivo, frisa o economista, teria que levar em conta o que aconteceu após 2016.

Mas exatamente nesse ano Marcelo Crivella, adversário político de Eduardo Paes – que esteve à frente de todo o processo de candidatura, vitória e realização das Olimpíadas no Rio –, venceu a eleição para a Prefeitura, e não exatamente cuidou com carinho do legado olímpico.

De qualquer forma, a avaliação do período 2008-2016 a partir de microdados públicos, é bastante positiva.

O estudo, que usa dados de Censo demográficos e da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), faz comparações com duas dimensões entrecruzadas. A primeira é temporal, entre diferentes períodos do passado desde 1970, a depender da disponibilidade de dados, e a fase 2008-2016. A segunda, espacial, se dá entre o Rio e os outros municípios da região metropolitana, para os dados objetivos; e entre o Rio e o São Paulo, para os subjetivos, como percepção da população sobre diversos temas.

Dois recortes comparativos em particular revelam que a fase 2008-2016 foi favorável ao Rio. O primeiro é a comparação da evolução de 38 indicadores (objetivos) entre o Rio e os demais municípios da região metropolitana naquele período, cobrindo as áreas de serviços públicos, habitação, transporte, inclusão digital, educação, trabalho e desenvolvimento social.

Dos 38 indicadores, o Rio evoluiu melhor que o conjunto dos demais municípios da região metropolitana em 23 (alguns exemplos são coleta de lixo, densidade por dormitório, anos de estudo, renda domiciliar per capita e nível de pobreza) igual em dez (como tempo de transporte para o trabalho ou ter carro e moto para uso pessoal) e pior em cinco (rede de esgoto e computador com internet em casa, entre outras).

Nas áreas de educação, trabalho e desenvolvimento social, o Rio teve desempenho melhor que O do resto da região metropolitana em 13 indicadores, e igual em cinco – em nenhum caso inferior.

A segunda comparação de destaque é entre os períodos de 1992 (quando foi realizada a conferência ambiental Rio 92) a 2008 e de 2008 a 2016. Compara-se a evolução do Rio à dos outros municípios da área metropolitana naqueles dois períodos, com 24 indicadores objetivos nas áreas de serviços públicos, habitação e transportes, educação e trabalho e desenvolvimento social.

Em 1992-2008, o Rio piorou em relação ao restante da área metropolitana em dez indicadores (como anos de estudo e renda domiciliar per capita), melhorou em sete (coleta de lixo, eletricidade etc.) e ficou igual em sete (alguns exemplos são casa própria financiada e tempo de transporte para o trabalho).

Na mesma comparação, só que referente ao período de 2008-2016, o Rio melhorou em 18 indicadores (como água encanada, eletricidade, casa própria com banheiro etc.), piorou em apenas um (rede de esgoto), e ficou igual em cinco (anos de estudo da população de 15 anos ou mais, renda domiciliar per capita etc.)

Numa tentativa de resumir os achados, Neri destaca que o conjunto dos indicadores aponta uma melhora relativa indiscutível do Rio no período entre a escolha da cidade como sede das Olimpíadas e a realização do evento, mas com algumas lacunas importantes como saneamento (que piora nas duas comparações acima) e inclusão digital.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/7/2021, quarta-feira.