Risco econômico com Dilma e Lula não são intenções, mas circunstâncias

Ex-presidente deve saber que ajuste fiscal é inevitável e provavelmente tentaria tocá-lo, caso Dilma resistisse ao impeachment e ele sobrevivesse aos problemas com a Justiça e fosse para o governo. Mas as circunstâncias mudaram e muito improvável que Lula fosse bem-sucedido.

Fernando Dantas

13 de abril de 2016 | 19h00

Há rumores de convites ao ex-presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, para ser ministro da Fazenda tanto no caso de impeachment, e de um governo Temer, quanto na hipótese de Dilma sobreviver figurativamente, mas o comando do governo passar na prática para Luiz Inácio Lula da Silva – supondo que o ex-presidente resista à ofensiva judicial contra ele.

Independentemente de esses rumores terem fundo de verdade, e da disposição de Meirelles de ir para o governo, é significativo que seu nome surja num momento crítico como o atual. É um sinal de que o establishment político, incluindo todas as principais correntes envolvidas no atual imbróglio, sabe que a agenda de ajuste fiscal e austeridade é inescapável.

Muito se tem falado dos sinais que Lula tem dado para a militância do PT e para os movimentos sociais, no sentido de que é preciso mudar a atual política econômica, teoricamente focada no ajuste – ao menos no discurso ainda preservado por Nelson Barbosa, ministro da Fazenda –, para colocar no lugar iniciativas de estímulo ao crescimento.

Deriva daí boa parte do temor de que, com uma eventual vitória de Dilma na guerra do impeachment, as precárias condições de governabilidade acabarão arrastando o País na direção de uma aposta dobrada no populismo vigente entre 2011 e 2014, com consequências catastróficas. É o cenário de terra arrasada a que se contrapõe o impeachment.

Essa ideia, porém, subestima o perfil camaleônico de Lula. A sua trajetória política é marcada pela falta de comprometimento com quaisquer ideologias em particular, e um forte sentimento de pragmatismo. Não deve ter escapado ao ex-presidente a constatação do retumbante fracasso da política econômica heterodoxa que veio a ser conhecida como nova matriz econômica. O mais provável é que, supondo-se que o impeachment seja derrotado, ele tente cooptar sua base política para que pelo menos não se oponha de forma ferrenha a algumas medidas significativas de ajuste, ao mesmo tempo em que tenta pacificá-la com concessões pontuais que não prejudiquem a estratégia como um todo.

O grande problema é que a atual crispação político-ideológica da sociedade brasileira indica que soluções na base do jeitinho talvez já não tenham condições de funcionar. É provável que Lula encontre rejeição muito maior em qualquer tentativa de se aproximar da classe média e da elite, ao mesmo tempo em que sua base de esquerda estará muito mais intolerante à história de que é preciso fazer “concessões ao mercado” num primeiro momento, para depois “avançar”.

Por outro lado, o ajuste ortodoxo hoje se faria na contracorrente de uma recessão fortíssima, um nó fiscal sem solução à vista, um enorme desarranjo microeconômico provocado por políticas fracassadas e piora dos termos de troca. Em comparação, o bem sucedido ajuste de Lula no início do seu primeiro mandato, apesar da aparente dramaticidade da crise na época, se deu em condições muito mais favoráveis, e às vésperas do início do superciclo das matérias-primas.

Dessa forma, é mais provável que um governo sobrevivente de Dilma, tocado por Lula, seja derrotado pelas circunstâncias do que pelas intenções iniciais. Neste caso, num segundo momento, quando toda a esperança de estancar a crise tiver desaparecido, aí sim surgirá a preocupante tentação do mergulho no populismo como um ato final de desespero. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/4/16, segunda-feira.

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