Risco geopolítico e desaceleração global

Fernando Dantas

13 de outubro de 2014 | 23h58

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o futuro ministro em caso de vitória de Aécio Neves, Armínio Fraga, discutiram ontem se há ou não uma crise global, durante o debate dos dois no programa da jornalista Miriam Leitão, da Globo News. Há um quê de semântico na questão: se não resta dúvida de que nem de longe o mundo vive um momento dramático como em 2009, e nem mesmo a recaída associada à crise da dívida europeia em 2011, a economia global está num momento pouco dinâmico, e há temores de que possa piorar.

Na sexta-feira (10/10/14), além da decepção associada ao equilíbrio de Aécio (por quem o mercado torce) e Dilma nas pesquisas do Datafolha e do Ibope divulgadas na quinta-feira (9/10/14) – levantamentos divulgados anteriormente por institutos pouco conhecidos indicavam o tucano bem à frente –, pesou sobre os ativos no Brasil um mal estar global mais generalizado, ligado a riscos políticos e temores sobre a desaceleração da economia mundial.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP no Rio, nota que, depois de um pico pouco acima de 2000 pontos em meados de setembro, o SP 500 americano vem caindo gradualmente. A queda desde então (até sexta, 10/4) foi de aproximadamente 4,5%, nada drástica, mas denotando uma trajetória de recuo razoavelmente clara.

Para Rocha, tensões geopolíticas estão pesando sobre o mercado. Ele acha que o vírus ebola, que numa hipótese extrema poderia causar uma grande crise de saúde pública em vários países, afetando a economia global, é um dos fatores em destaque atualmente. “Não é que as pessoas achem que o pior vai acontecer, mas fica pairando como um risco, uma incerteza”.

O cenário cada vez mais complicado no Oriente Médio com os avanços do Estado Islâmico (EI), que agora envolveram a Turquia e a complexa questão curda, também vem causando insegurança no mercado. E ainda há as questões da Rússia e Ucrânia e dos protestos em Hong Kong, embora esses dois temas já tenham deixado para trás os seus momentos recentes mais críticos (há sempre a possibilidade de novas pioras, claro).

Como pano de fundo mais geral, figura o enfraquecimento da economia global, com chances de uma nova recessão europeia, a piora das estimativas de crescimento mundial este ano pelo FMI e a queda do preço de matérias-primas fundamentais, como petróleo e minério de ferro.

A piora mais recente nos mercados brasileiros, que acompanha a de vários emergentes, incluindo desvalorização de moedas, se dá ao mesmo tempo em que o juro referencial do título de dez anos do Tesouro americano vem caindo, de níveis acima de 2,5% no final de setembro para 2,3% hoje (sexta,10/10/14), no momento em que esta coluna estava sendo escrita.

É um padrão diferente do ocorrido em meados de 2013, quando a primeira comunicação, bastante atrapalhada, sobre a redução gradual da última rodada de afrouxamento quantitativo nos Estados Unidos provocou forte estresse nos mercados. Naquele momento, a piora dos ativos emergentes aconteceu simultaneamente à forte alta da rentabilidade dos “treasuries” de dez anos.

Rocha explica que o padrão verificado hoje no mercado é justamente sintomático de riscos geopolíticos, quando a alta da percepção de risco é acompanhada por fuga de capitais em direção aos ativos mais seguros do mundo, entre os quais o principal é a dívida pública americana. Com o forte afluxo de capital, os juros dos treasuries caem ao mesmo tempo em que o real e outras moedas emergentes se desvalorizam, e os juros futuros no Brasil sobem.

 

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/10/14, sexta-feira.

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