Risco populista na França

Ascensão nas pesquisas de Jean-Luc Mélenchon, de extrema-esquerda, desperta temores de um segundo turno entre ele e Marine Le Pen, de extrema-direita. A eleição francesa tem primeiro e segundo turnos respectivamente em 23/4 e 7/5.

Fernando Dantas

14 de abril de 2017 | 21h43

Parecia que a onda de populismo nos países ricos, que se avolumou no ano passado com o Brexit e a vitória de Trump, estava sendo contida, depois da derrota de Geert Wilders, o candidato da extrema-direita anti-imigrante, na eleição holandesa em março. A expectativa era de que Emmanuel Macron, o candidato centrista e liberal, ganharia com alguma facilidade as eleições francesas, com dois turnos em 23 de abril e 7 de maio.

O cenário que até pouco tempo estava firmemente no centro do radar do mercado é o de Macron indo para o segundo turno contra Marine Le Pen, do Front National, o partido de extrema direita. A partir daí, Macron esmagaria a candidata anti-imigração com uma vantagem de mais de 20 pontos, que ainda é indicada pelas pesquisas.

Agora, porém, das entranhas da dividida esquerda francesa começou a despontar um azarão, na figura Jean-Luc Mélenchon, um estridente candidato de extrema-esquerda. A bordo do movimento La France Insoumise (A França Insubmissa), e sem o apoio dos tradicionais partidos socialista e comunista franceses, Mélenchon, desde o final de março subiu de pouco mais de 10% nas pesquisas do primeiro turno para quase 20%.

Macron e Le Pen continuam a liderar com intenções de votos de cerca de 25% cada, mas a velocidade da subida de Mélenchon traz agora a possibilidade real de um cenário aterrorizante para a elite cosmopolita e os mercados: um segundo turno disputado entre Le Pen e Mélenchon. O centro-direitista François Fillon também está com 20% das intenções de voto, o que caracteriza um primeiro turno embolado, que pode levar a vários cenários diferentes de segundo turno.

De certa forma, um segundo turno de Le Pen contra Mélenchon seria um cenário parecido com uma eventual eleição americana de 2016 que colocasse Trump contra o senador Bernie Sanders, numa disputa entre populismos de direita e de esquerda. No Reino Unido, o político de perfil assemelhado ao de Melénchon é Jeremy Corbin, que de forma surpreendente conquistou a liderança do Partido Trabalhista em 2015.

A agenda de Mélenchon é frontalmente oposta à visão liberal, que, mesmo sem ser tão aguda quanto no caso dos países anglo-saxões, dá o tom das instituições ligadas à União Europeia (UE) e à zona do euro. Ele é contra a austeridade e a favor de expandir o Estado de bem-estar social, redistribuir de forma radical a riqueza, com taxação superpesada dos muito ricos, aumentar o salário mínimo e reforçar os direitos trabalhistas.

Crítico do “neoliberalismo” da UE, o político é favorável a renegociar tratados do bloco e à saída da França da Otan, mas, diferentemente de Marine Le Pen, não defende uma saída do euro em qualquer caso. Na verdade, Mélenchon condiciona esse cenário de abandono da moeda única à frustração da sua tentativa de renegociar a relação com o bloco. O problema, porém, é que, entre suas demandas, há pontos impensáveis, como o fim da independência do Banco Central Europeu (BCE). Não há como evitar o clichê: é mais fácil um camelo passar pelo fio de uma agulha do que os alemães concordarem com aquela condição.

Se Macron for ao segundo turno, é muito provável que ele derrote com facilidade tanto Le Pen quanto Mélenchon. O grande pesadelo, obviamente, seria um segundo turno entre a radical de direita e o radical de esquerda.

Na questão de imigração, as posições de Le Pen contrastam com a postura de Mélenchon, bem mais generosa que a do establishment de esquerda na França. O candidato esquerdista defende o fim das cotas de imigração e dar nacionalidade integral a qualquer criança nascida na França.

Na verdade, as sondagens de hoje indicam que Mélenchon venceria com facilidade um segundo turno contra Le Pen.

De qualquer forma, um segundo turno entre os dois candidatos extremistas ressuscitaria o nervosismo global com a ascensão do populismo nos países ricos – e os riscos associados ao fenômeno, como aumento do protecionismo, desintegração da zona do euro e tensões geopolíticas. O Brasil, com certeza, não ficaria imune às ondas de choque. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast  

Esta coluna foi publicada no Broadcast em 12/4/17, quarta-feira

Tendências: