Riscos para Dilma de rotular Marina de “tucana”

Ao tentar aproximar Marina dos tucanos, Dilma pode também chamar a atenção para problemas da sua política econômica que estão sendo criticados pelos dois adversários.

Fernando Dantas

07 de setembro de 2014 | 21h24

Com a disparada de Marina Silva nas intenções de voto, um componente da estratégia da presidente Dilma Rousseff que pode ganhar força é o de tentar identificar a candidata do PSB com os tucanos, o velho adversário que o PT soube derrotar sucessivamente nos últimos anos. O principal elemento dessa linha de campanha – que, diga-se de passagem, é 100% verdadeiro – é mostrar que o pensamento dos assessores econômicos de Aécio e de Marina é muito parecido. Essa linha de ação, porém, tem seus riscos e não é uma escolha tão óbvia.

O candidato tucano, Aécio Neves, fez uma aposta ousada na sua campanha ao centrar fogo na crítica à política econômica de Dilma. A visão era de que a inflação alta e os primeiros sinais de resfriamento do mercado de trabalho seriam suficientes para suscitar no eleitor a vontade de mudar a gestão da economia, tornando possível a Aécio reempacotar o ideário liberal do PSDB. De forma inédita em relação aos candidatos do partido nas últimas eleições presidenciais, Aécio defendeu enfaticamente as privatizações e o legado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O tucano chegou ao expediente inédito de anunciar Armínio Fraga como seu futuro ministro da Fazenda, apostando no inegável prestígio de um nome que, entretanto, não tem conexões profundas com as camadas populares.

Mas a estratégia de criticar a política econômica de Dilma parecia estar dando certo, tanto que Aécio estreitou, ao longo de várias pesquisas, a sua diferença em relação à presidente nas simulações de segundo turno. Porém, com a morte de Eduardo Campos e a entrada de Marina como cabeça de chapa na campanha do PSB, a candidatura tucana sofreu um gigantesco abalo.

Com isso, apesar de se manter como o mais fervoroso porta-voz da crítica liberal à política econômica de Dilma, Aécio provavelmente já não é o adversário mais relevante politicamente destas ideias. Por uma ironia do destino, Marina, com seu passado petista e de ativismo ambiental, tornou-se a principal esperança (pela fotografia do momento, pelo menos) dos brasileiros que combatem o neodesenvolvimentismo de Dilma Rousseff.

A campanha petista, por outro lado, tem agora a alternativa de colocar Dilma como a defensora de uma política econômica nacionalista e desenvolvimentista em contraponto à agenda liberal e ortodoxa dos seus dois principais adversários.

O risco dessa estratégia está no fato de que a política econômica da presidente Dilma Rousseff levou a um dos piores desempenhos em termos de crescimento do PIB de todo o período democrático. A inflação manteve-se elevada, rondando o topo da banda de tolerância da meta, de 6,5%. Por outro lado, o mercado de trabalho mostrou uma surpreendente resistência, com desemprego ainda em recorde de baixa e um crescimento razoável da renda real.

A massa dos eleitores brasileiros não é profundamente ideológica, e deve julgar a política econômica de Dilma pelos resultados. Há, como se viu acima, muitos números ruins, mas também existe o que mostrar, que são justamente os indicadores mais próximos do bolso do eleitor. O mais provável é que a campanha da presidente não se esquive do debate sobre política econômica, mas também não se esforce muito para colocá-lo no centro do palco. O próprio fato de que Aécio, antes do fenômeno Marina, vinha crescendo com seu discurso de crítica à nova matriz, deve provocar cautela no PT quanto a uma discussão aberta e desabrida sobre ideologia econômica. Se isso for verdade, atacar Marina identificando-a com as ideias econômicas tucanas torna-se uma opção menos trivial para Dilma.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada em 1/9/14, segunda-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: