Ruas desertaram impeachment em 13/12

Os organizadores da última manifestação têm uma série de explicações para o baixo comparecimento em 13/12, de apenas 3% das multidões de 15/3. Mas o fato é que baixo comparecimento no último domingo enfraqueceu momentaneamente partidários do impeachment.

Fernando Dantas

15 de dezembro de 2015 | 10h40

O fraco comparecimento às manifestações desse último domingo indica que o impeachment pode ser mais difícil do que supõem alguns profissionais do mercado. O relatório de uma conhecida consultoria apontou que as cerca de 80 mil pessoas que – calcula-se – foram às ruas para pedir a saída da presidente Dilma Rousseff neste 13 de novembro correspondem a apenas 3% dos cerca de 2,4 milhões que teriam lotado os espaços públicos em 15 de março, em atos contra o PT e o governo.

Assim, por mais que a tese do impeachment avance no clima frenético da corte de Brasília, com movimentos claros do vice-presidente, Michel Temer, e do PMDB na direção de romper com o governo, a população parece mais apática no momento do que no início do ano.

Os organizadores da manifestação de domingo buscaram minimizar os efeitos do baixo comparecimento. Um dos argumentos é de que a época do ano não é propícia a grandes mobilizações. Outro menciona o fato de que o processo de impeachment já tenha sido deslanchado, o que teria satisfeito até o presente momento a cobrança da maioria dos brasileiros que deseja a interrupção do mandato da presidente – e que assim não acharam necessário ir às ruas. Por esse raciocínio, na iminência das votações do impeachment no Congresso, as massas se sentiriam novamente motivadas a engrossar as manifestações, para pressionar por um objetivo específico.

A isso se soma a ideia de que, passado o período de festas de fim de ano e de férias escolares que se estende até o Carnaval, a maior parte da população de certa forma “volta à vida real” em meados do primeiro trimestre. Com a deterioração do mercado de trabalho em plena marcha, esta seria uma boa fase para reesquentar os motores da insatisfação popular, com um novo crescendo de manifestações para culminar às vésperas do impeachment efetivo.

Todos esses raciocínios parecem conter alguma dose de “wishful thinking”, isto é, têm certa lógica interna, mas não há indicações mais firmes que a realidade vai se comportar desta forma. Assim, concretamente, há o fato de que as manifestações de domingo fracassaram, como coloca claramente a consultoria mencionada acima, o que mais atrapalha do que ajuda o impeachment.

Entender os motivos desse fracasso é mais complexo, mas é evidente que eles revelam certa apatia da maioria da população, por mais fervilhante que seja o excitamento que o impeachment vem causando em Brasília e nos círculos mais informados da opinião pública.

Uma possível explicação seria a de que, mesmo com toda a força da recessão e o aumento do desemprego, a queda do rendimento real ainda foi relativamente pequena, devendo ficar em cerca de 0,3% em 2015 na Pnad Contínua, que abrange toda a população do País. Por outro lado, levando em conta que o ambiente das manifestações é mais o dos grandes conglomerados urbanos, talvez fizesse mais sentido olhar a renda real da PME, que abrange as seis principais regiões metropolitanas do Brasil. Neste caso, a queda da renda real em 2015 deve atingir algo em torno de 4%,o que parece mais do que suficiente para acender a ira da população contra o atual governo.

Assim, para os que querem o impeachment, o resultado das manifestações de domingo são inquietantes, mesmo na suposição de que uma piora ainda maior da economia na vida cotidiana dos brasileiros possa aumentar a pressão das ruas alguns meses à frente. A sensação é de que o circo de horrores em que se transformou o Congresso e a política nacional – com destaque para Eduardo Cunha, presidente da Câmara, principal operador político do impeachment – contaminou a percepção da população, que não faz tanta distinção assim entre o padrão ético do atual governo e o dos seus adversários. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/12/15, segunda-feira.

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